LarMontessori.com

sábado, 21 de abril de 2012

O que aconteceu com o Lar?

Leitores queridos,

Opa! O Lar Montessori está amarelo!
Sim! Ele está amarelo para comemorar a finalização do texto básico do primeiro livreto a sair sob o selo Lar Montessori!

Eu espero que vocês tenham notado a ausência de um novo post na última quinzena, e peço desculpas por isso. Eu vou escrever sobre disciplina na quinzena que vem. Nesta, estou concentrando todos os meus esforços na finalização do "Uma Introdução ao Método Montessori".

A ideia desse livrinho é auxiliar pais, mães e professores a dar os primeiros passos no método Montessori, e assim expandir um pouco as fascinantes ideias que discutimos aqui no Lar. Escolas de todo o Brasil receberão este livreto, e ele poderá ser adquirido de alguma forma aqui pelo blog ou baixado no seu computador.

Como vocês sabem, eu não aceito fazer propagandas aqui, nem mesmo as do Google entram (e olha que o Google é o maior exemplo de empresa Montessori no planeta!). Assim, não ganho um centavo com o Lar. Em compensação, ganho a alegria de saber que tantos pais e mães estão felizes com as nossas sugestões.

Como vocês também sabem, produzir um livro custa uma pequena fortuna, por menor que seja o livro. E como vocês suspeitam - espero eu - eu não vim aqui pedir dinheiro. Quero, isto sim, ajuda.

Preciso de leitores outros que possam analisar o texto do livro sob os seguintes aspectos:

1. Correção gramatical;
2. Clareza;
3. Diagramação textual e
4. Utilidade da informação.

Se você só puder analisar um destes pontos, eu já agradeço bastante. Se puder analisar mais de um, agradeço mais ainda. Quem já tiver alguma experiência com revisão textual e quiser ajudar nisso, seria louvável. Aproveito para dizer que, claro, os nomes daqueles que ajudarem aparecerão na apresentação do livro, com uma mensagem de gratidão.

Se algum de vocês tiver contatos com uma boa gráfica, que produza livros independentes, por favor fale com a pessoa que você conhece. Eu quero distribuir este livrinho por todo o Brasil, e isto também custará dinheiro, então se a produção puder ficar mais barata, eu fico feliz.

Um abraço forte e minha gratidão adiantada,
Gabriel

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Pequenos Artistas – a criança e a arte em Montessori


Por meio de suas longas observações, Montessori percebeu que a criança passava por diversos períodos sensíveis. De zero a seis anos, a criança está numa fase de intensa absorção de seu ambiente e ao mesmo tempo se trata de um período durante o qual os sentidos estão à flor da pele, buscando serem educados. Os materiais Montessori para primeira infância trabalham justamente com a ideia de educação sensorial, assim, há séries de materiais que educam os olhos para a discriminação minuciosa de cores e tons, para a identificação de formas geométricas mais e menos semelhantes, para texturas, pesos e tamanhos com gradações de variação, do óbvio ao quase imperceptível.

Crianças de cinco anos já são capazes, por treino voluntário, de identificar notas musicais, formas geométricas as mais variadas, sessenta e quatro tons e cores e são capazes de perceber acuradamente diferenças de tamanho, peso ou textura. Este seria, para Montessori, o início do treino dos sentidos necessário à apreciação artística. Os olhos estariam educados para notar a utilização de cores e formas, os ouvidos para perceber a melodia, as mãos para sentir e para criar, já que há razoável abundância de materiais que treinam o controle motor dos braços, mãos e dedos.

Estar “educado” aos cinco anos não quer dizer, no entanto, que não se possa tirar prazer da arte antes disso. Nas salas de aula Montessori, e na sua casa pode ser assim também, sempre há uma música tocando. Quase invariavelmente se trata de música clássica, pelo tipo de melodia que não atrapalha a concentração e auxilia a percepção musical da criança. As paredes são decoradas com quadros renomados, para que desde a primeira infância possa-se ter contato com as obras de arte fundamentais da civilização.

A mobília dos ambientes deve ser muito limpa e muito bem organizada, para que haja menos confusão de estímulos e aquilo que for relevante para os sentidos possa ser absorvido. As cores do ambiente devem ser suaves, embora os quadros possam trazer cores mais fortes. Alguns argumentam que a música poderia atrapalhar a concentração. Estudiosos do tema, no entanto, dizem que pequenos ruídos não só não atrapalham a concentração, como podem auxiliar seu desenvolvimento.

O quarto de seu filho pode ter belos quadros na parede, e você pode perguntar a ele o que ele vê na gravura, e ao mesmo tempo contar o que se passa na ilustração. Dê os nomes dos quadros e dos pintores, crianças pequenas adoram categorizar coisas mentalmente, e pode ser um atrativo a mais apreender os quadros por pintores ou por seus nomes.

Se seu filho já aprendeu as cores, você pode perguntar que cores existem no quadro, e permitir que ele aponte onde está cada cor, mas nunca force sua atenção, faça tudo de forma que seu filho seja livre para demonstrar que não quer mais a qualquer momento. A arte deve ser algo agradavelmente absorvido e aprendido, e não uma sequência de lições forçadas que o façam saber todas as datas e os nomes, mas o façam desistir de visitar museus para sempre, sob a alegação de monotonia.

A produção artística é objeto de intenso debate entre estudiosos montessorianos. Alguns argumentam que o desenho deve ser guiado por exercícios para as mãos, outros dizem que enquanto há exercícios, deve haver também oportunidade para o desenho livre. Maria Montessori sempre foi adepta da espontaneidade infantil, de forma que considerava o desenho livre algo fundamental à sala de crianças pequenas.

Ela percebeu, no entanto, que havia uma melhor desenvolvimento da habilidade manual da criança, e até uma preferência por parte dos pequenos, se inicialmente se permitisse o desenho livre por algum tempo, até serem inseridos os primeiros exercícios de desenho, baseados no contorno de formas geométricas em metal. Em seguida, se ensinaria a traçar linhas retas e a respeitar as bordas, para depois se ensinar a utilização de um mesmo lápis colorido para a produção de diferentes tons de cor e finalmente, depois de a mão se ver educada, se retornaria ao desenho, desta vez baseado em observação, um desenho que partisse da realidade.

Montessori enfatizou também a importância da música e disse que não só deveria haver a possibilidade de todas as crianças aprenderem um instrumento depois de serem educadas para a percepção e leitura musicais, mas que também todos os professores da primeira infância deveriam saber tocar pelo menos um instrumento, para que as crianças pudessem reconhecer as notas para além do som produzido pelo material musical básico, que é composto por sinos de metal que produzem uma escala completa.

Como sempre, se a criança demonstrar vontade de se desenvolver mais nas áreas ligadas à arte, esta liberdade lhe deve ser dada, e se deve perceber por observação o que é que ela busca, e auxiliá-la por meio de materiais e instrução. Caso seu filho demonstre que gosta de pinturas, procure mostrar a ele livros de mestres da pintura com diversas gravuras, e ensine um ou outro nome mais importante. Dê-lhe pequenas biografias de pintores para ler, para que se inspire, e se o interesse chegar a este ponto, procure um professor de desenho para crianças, que seja ao mesmo tempo libertário e rígido, para que seu filho possa seguir seus interesses e tendências pessoais, mas para que sua mente se sinte desafiada, e não somente propensa a criar rabiscos durante algumas horas todas as semanas.

O mesmo se dá quanto a instrumentos musicais. Se seu filho demonstra gosto por música, e você percebe bem estar, contentamento ou interesse durante uma boa peça, pergunte a ele se gostaria de aprender a tocar, e ensine-o, ou encontre alguém que possa ensiná-lo. Novamente, pense em um professor que enxergue sua criança como um ser humano, e que o respeite, de forma a permitir a ele a liberdade necessária e exigir dele o esforço que torna tudo mais interessante.

Lembre-se, porém, que seu filho somente passará a cultivar o gosto pela alta arte a partir do momento em que tiver alguém em quem se espelhar. Ele passará muito tempo diante de um quadro se vir que há o que descobrir nele, e só verá isso se seus pais examinarem as obras com atenção e interesse verdadeiros. O mesmo se dará com a música. Pais que escutem música e conversem sobre tendem a cultivar o gosto e a educação musical nos filhos. Idas a museus não devem parecer nunca uma tarefa a cumprir, mas algo tão divertido quanto ir a um cinema ou um parque. Sendo a Literatura uma forma de arte, aproveito para ressaltar que o amor pela leitura tem a mesma fonte: não adianta ler para seu filho. Ele tem de ver que você lê para você também, por prazer e interesse, para que haja sentido ele o fazer sozinho, e não só em dupla com os pais e professores.

Guarde sempre nossos princípios maiores: expor a criança ao estímulo necessário, falar somente o estritamente relevante, e observar sua reação ao objeto, à imagem ou ao som. A partir da reação do seu filho é que você dará o próximo passo, e não por meio de um plano pré-estabelecido de educação artística. A percepção da arte deve partir de dentro dele, e não ser imposta de fora, pois se brotar da própria criança, durará por toda a vida, e será uma inesgotável fonte de interesse, aprendizado e bem-estar. O que mais podemos desejar para um pequeno artista?

terça-feira, 20 de março de 2012

Dia do blogueiro! (e eu só descobri agora!)

Vejam como são as coisas!

Passei o dia todo vivendo normalmente e descubro só agora, quase deitando a cabeça no travesseiro, que é dia do blogueiro!
Eu sei que mensagens assim pessoais e diretas não são comuns no Lar Montessori. Mas, meus leitores queridos, vocês fizeram o Lar Montessori chegar entre os 100 blogs de Educação mais lidos do Brasil. Vocês fizeram o Lar Montessori ter 5.000 visitas, vocês fizeram o Lar Montessori atingir 100 visitas por dia (é nossa média recentemente). Vocês fizeram o Lar Montessori ficar grande o suficiente para ser lembrado fora do Brasil, e hoje recebemos visitas de países de língua portuguesa pelo mundo todo e o grupo Montessori MadMen está nos incentivando a escrever em inglês também!

Vocês estão comentando bastante e graças às visitas, aos comentários e aos compartilhamentos, estamos ganhando seguidores com frequência!

Muito obrigado, queridos, muito obrigado de verdade! Escrever para vocês é tudo de bom!

Agradeço especialmente aos blogs Ciranda Materna e Segredos de Mamãe, que nos citaram e enviaram mais de uma centena de visitantes nos últimos dias.

Sintam-se abraçados e recebam votos de gratidão a vocês e seus pimpolhos!

Gabriel


domingo, 18 de março de 2012

Passeios à Natureza - Amando e Conhecendo o Universo

Você leva suas crianças a parques? Se sim, parabéns! Se não, tire um tempinho para fazer isso com alguma frequência. O contato com a natureza é fundamental para o desenvolvimento do seu filho. Parques, praças e bosques, assim como praias, oferecem ambientes com muitos estímulos sensoriais para os pequenos, mas de forma suave, sem poluição visual ou sonora.


O contato com a natureza oferece uma quantidade muito grande de possibilidades e assim desperta a curiosidade a um ponto que a casa dificilmente conseguiria. Um dia no parque pode plantar sementes de curiosidade e questões para uma semana inteira, dependendo da idade da criança (isso é especialmente verdadeiro para a faixa etária de três a seis anos). Esteja preparado para responder a estas questões e voltar à natureza em seguida.


Quando a criança é muito pequena, é bom ir ao parque de manhã, quando o sol é fraco e ela está bem desperta, assim pode-se sentar na grama, e ela pode brincar um pouquinho com o entorno, mesmo que não possa se aventurar muito longe. Ficar perto de uma árvore é uma boa ideia, já que só um pequeno espaço incluindo a árvore oferece sombra, raizes, tronco (e sua casca), folhas, terra, grama e quem sabe frutos ou flores. Insetos estarão por perto também, não tema todos eles. Pequenos besouros, joaninhas, grilos ou gafanhotos, borboletas e bicos-pau não são arriscados e maravilham qualquer pequeno explorador.


É claro que é bom evitar abelhas (se as cores que vocês vestirem forem suaves e não houver açúcar nas comidas e bebidas, elas não vão aparecer) e se você não conhecer quais aranhas picam e quais não, espante todas. Mas pare por aí, outros bichinhos são mais uma fonte de conhecimento do mundo do que uma ameaça.


Montessori dizia que não é suficiente amar a criança. É necessário antes conhecer e amar o universo. Ame o universo. Procure se maravilhar com a natureza, assim como seu filho, adote de novo o olhar do explorador, que acha incrível uma folha avermelhada e se surpreende com um pássaro colorido. Mostre essas coisas a ele, não como um professor, mas como alguém que também acha tudo aquilo belo e surpreendente.


Permita que a criança passeie, que pare onde mais lhe interessar, que pegue coisas, que se suje um pouco (ou muito, a depender da sua tolerância), que fique muito tempo parada olhando algo que você sequer percebeu que existia ou que simplesmente não olhe para algo que fascinou muito a você. A maneira de pensar e de ver deles são muito diferentes da sua.



Mostre ao seu filho, nas próximas idas ao parque, como a natureza funciona. De forma descontraida e informal, mostre os ninhos dos passarinhos e explique que são as casas deles, mostre girinos e explique que são os filhotes do sapo, mostre as abelhas e as borboletas nas flores e explique que estão se alimentando e fazendo mel. Com o tempo, explicar a polinização pode ser muito interessante. Sim, você vai ter que estudar muita coisa de novo, mas não vale a pena? Para maravilhar sua criança com a natureza?


Algumas crianças, especialmente as mais velhas, podem recusar-se a ir ao parque ou ao bosque, dizendo que preferem ir ao shopping, ao parque-de-diversões ou à casa de um amiguinho. Embora nenhum desses passeios seja reprovável em si (não recomendamos o shopping para crianças, é excesso de estímulo), é importante que os pequenos saibam admirar o silêncio, perceber um canto de passarinho e o zumbido de uma mosca ou uma abelha. Só por meio do contato com a natureza é possível amá-la, e só por meio do amor a ela é possível respeitá-la - assim, se você quiser que seu filho saiba preservar o ambiente em que vive, mais um motivo para dar a ele oportunidades de curtir esse mesmo ambiente.


As maravilhas e as surpresas da praia são outras, e tão belas quanto as do parque. Quando der, leve seu filho, mesmo muito pequeno, ao mar. Brinquem nas primeiras ondas, molhem-se, façam castelinhos de areia e peguem caranguejinhos e conchas. Tudo isso ensina. Com tudo isso se aprende.


A textura da areia e as cores dela, o fato de nem sempre o castelo ficar de pé, a dificuldade de pegar um animalzinho que se mexe e o material de que é feito uma concha (assim como o brilho da parte de dentro dela) são aprendizados para a criança pequena. Pode ser que surja uma coleção de conchas, neste caso, tente descobrir os nomes delas e ensine-os ao seu filho. Crianças adoram categorizar coisas e estão em uma excelente idade para adquirir vocabulário, inclusive o científico, que não tem nada de difícil, e assim parece para nós por puro preconceito. Levar a criança um pouquinho mais velha (trës ou quatro anos pelo menos) até aquários pode ser fantástico também. 




O terceiro fascínio natural a que podemos e devemos expor a criança é o céu. Se houver a possibilidade de uma viagem curta até um local com pouca luminosidade (casas de familiares no interior, ou uma praia menos popular, por exemplo), mostre as estrelas, a Via-Láctea, identifique constelações e dê os nomes e as histórias delas aos pequenos. Amem e conheçam o universo.


Viver no Brasil tem muitas vantagens neste ponto. Nosso país é privilegiado naturalmente e oferece-nos uma abundância inimaginável de biodiversidade. Além disso, nós temos um escritor infantil que mostrou de forma belíssima as belezas e a perfeição da natureza em seus livros. Monteiro Lobato, especialmente em "A Chave do Tamanho", "Reforma da Natureza" e "Viagem ao Céu" mostrou como o mundo natural e o universo podem ser formidáveis. É uma boa ideia ler os livros com seus filhos de quatro a dez anos.


Quando forem ao parque, tirem fotos! Vai valer a pena mais tarde. E se você quiser, mande para a gente, e publicamos aqui. Envie para gabrielmsalomao@gmail.com contanto como foi o passeio e o que vocês viram de interessante.


Bom passeio!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sorteio!

Mamães e papais,

estou pensando em um sorteio!

Por enquanto, as possibilidades são:
1. Uma edição encadernada do livro "Introdução ao Método Montessori";
2. Uma edição encadernada do livro "Filhos da Terra", traduzido por mim;
3. Uma cesta dos tesouros com alguns objetos interessantes;
4. Uma visita de meio dia para ajudar a adaptar a casa e conversar sobre o seu filho¹.

Digam-me qual opção vocês preferem! ;)

¹Se você morar muito longe, fazemos isso via computador, por vídeo-conferência, gravações da sua casa e fotografias!


A Criança para Montessori

Este é o terceiro capítulo do livro "Introdução ao Método Montessori", a ser publicado em 2012. Depois de ler, diga se foi útil, se foi agradável, se há problemas ou dúvidas. Eu espero seu retorno!

~.~

A Criança para Montessori

"A educação da criança muito pequena,portanto, não visa
prepará-la para a escola, mas para a vida". (Montessori, 1967)

Quando Montessori inciou seu trabalho com crianças pequenas, não tinha nenhuma ideia pré-concebida, portanto, nenhum preconceito acerca da natureza da criança ou do que seria melhor para cada idade. Todo o seu trabalho foi desenvolvido tendo como base a observação do desenvolvimento infantil.

Montessori percebeu que a criança pequena (0-6 anos) tem algumas características sempre presentes, em qualquer classe social, etnia ou localização geográfica. E.M. Standing fez uma revisão da obra de Montessori e identificou estas características:

  •  Amor à ordem;
  •  Amor ao trabalho;
  •  Concentração espontânea;
  •  Apreensão da realidade;
  •  Amor ao silêncio e ao trabalho solitário;
  •  Sublimação do instinto de possessividade;
  •  Poder de agir por escolha;
  •  Obediência;
  •  Independência e iniciativa;
  •  Auto-disciplina espontânea;
  •  Alegria.


Como Montessori era uma cientista, antes de ser uma educadora ou uma ativista social, seu interesse maior era descobrir a criança, e não formatá-la. Daí podermos considerar naturais as características encontradas pela médica.

Montessori dizia que toda criança nasce com estas características, todas quando muito pequenas gostam de ambientes silenciosos, procuram estar ativas (interna ou externamente), são muito concentradas - e para isto basta ver uma criança pequena brincando de algo que lhe agrade -, o tempo todo querem entender o que se passa à volta delas, quando algo lhes desperta real interesse, passam muito tempo sozinhas em torno de seu foco de investigação, não têm noção clara de posse, não possuem rebeldia inata, por si mesmas aprendem a andar e falar, ainda que não ajudemos, sabem fazer muitas coisas e a hora de fazê-las, sem ninguém ensinar, e são alegres.

Muitas vezes, estas características parecem frutos de uma boa educação formal, mas na verdade estão presentes na criança sempre que ela é deixada em liberdade. Montessori considerava que as Casas das Crianças não eram formadoras, mas possibilitavam a construção da liberdade pela criança, de forma que aquelas belas características que haviam sido adormecidas por uma criação repressora em casa ou em outra escola voltassem à tona, desta vez de forma ordenada e em um ambiente preparado para elas.

Depois de observar crianças por muitos anos, em locais que Montessori considerava adequados ao pleno desenvolvimento de sua natureza, a pedagoga chegou à completude do diagrama abaixo:


De forma sucinta, as fases em azul são mais agitadas, de crescimento intelecto-sócio-emocional mais intenso e exigem tanto do ser em desenvolvimento que por vezes ele precisa de silêncio e solidão, pois está tentando absorver tudo o que seu corpo e intelecto exigem. Em uma escala crescente, no entanto, a criança se torna um adolescente e um adulto cada vez mais sociável.

Considerando as mudanças que ocorrem em alguns momentos da vida da criança, Montessori via não ser exagero dizer que "O crescimento é uma sucessão de nascimentos". Dizia que, "Num certo período da vida, uma individualidade psíquica acaba e outra nasce". Em todas as fases a ordem maior é proporcionar um ambiente preparado para a criança, com adultos preparados também, e depois deixar a criança livre para se desenvolver.

Na fase que vai de zero a seis (0-6) anos, a criança tem uma Mente Absorvente, estando pronta a absorver tudo o que vier do ambiente. "Este período é caracterizado pelas grandes transformações que têm lugar no indivíduo", pois a criança aprende sem ser ensinada quase todas as habilidades necessárias à sua sobrevivência: come, anda, pega, fala, controla a própria atividade biológica até um certo limite e aprende a viver socialmente, ainda que com restrições impostas pelos adultos.

Há, na fase da Mente Absorvente, duas sub-fases: a primeira, de zero a três (0-3) anos, é inacessível para o adulto, não se pode exercer nenhuma influência direta sobre esta criança. Na segunda sub-fase a mente ainda é absorvente, mas agora já é acessível ao adulto - não é de se estranhar que por muitos anos a educação formal no Brasil tenha se iniciado aos seis anos, já que só então o adulto é plenamente capaz de acessar a mente da criança.

O período seguinte, de seis a doze (6-12) anos, é de crescimento, mas sem transformações, "é um período calmo e sereno". Embora haja mudanças, não há nesta época nada que possamos chamar de "nascimento", como ocorre aos seis anos.

Chamamos a terceira fase, de 12 a 18 anos, de "Filhos da Terra". Nesta época, ocorrem tantas transformações "que nos lembra a primeira fase". Assim como a Mente Absorvente, os Filhos da Terra têm duas sub-fases: a primeira dos doze aos quinze (12-15) anos, é de maior aprendizado e mais transformações, e a segunda, dos quinze aos dezoito (15-18) é aquela que prepara o indivíduo para a sociedade humana. Sobre a terceira fase, Montessori dizia que o homem deve aprender a criar, a cultivar, a desenvolver. Depois de estar plenamente desenvolvido, é hora de participar da comunidade, daí as ideias de Montessori de que se deve dar ao adolescente a oportunidade de agir socialmente, compreendendo os caminhos da produção e da economia, assim como percebendo as diferenças sociais e buscando soluções para problemas.

No período que vai dos doze aos dezoito anos, foram identificadas algumas características extremamente comuns (Donahoe, 2010), entre crianças que foram deixadas livres para se desenvolver em um ambiente preparado:

  •  Alegria;
  •  Altruísmo;
  •  Otimismo;
  •  Confiança;
  •  Dignidade;
  •  Auto-disciplina;
  •  Independência e iniciativa;
  •  Vontade de ser útil;
  •  Bom senso;
  •  Habilidade de trabalhar com os outros.


A maior parte das pesquisas de Maria Montessori se desenvolveram com crianças de 0 a 6 anos, e ainda bastante com aquelas de 6 a 12. Após os doze anos, no entanto, Montessori pesquisou muito pouco¹ e disse que apoiava as pesquisas que estavam sendo feitas levando em consideração seus princípios. Há muito mais descobertas interessantes sobre adolescentes vindo de pesquisadores de linha montessoriana do que da própria criadora do método.


Gabriel García Márquez, grande escritor e Nobel de Literatura, foi aluno Montessori e disse, depois de adulto:
"Eu não creio que haja método melhor que Montessori para fazer as crianças sensíveis às belezas do mundo e despertar sua curiosidade sobre os segredos da vida".



__
STANDING, E.M. - Maria Montessori: Her Life and Work. New York: New American Library, 1962.
MONTESSORI, Maria - The Absorbent Mind. Lexington: BN Publishing, 2011.
DONAHOE, Marta - Liberty and Hope for the Adolescent: Valorization of the Personality, 2010.

¹Publicaremos em forma de e-book a tradução de "Filhos da Terra", reflexões de Maria Montessori acerca do desenvolvimento e da educação do adolescente, ainda em 2012.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Educação dos Adolescentes


“acima de tudo é a educação do adolescente que é importante, porque a adolescência é o período em que a criança entra no estado da idade viril e se torna um membro da sociedade. Se a puberdade é do lado físico uma transição do estado infantil para o adulto, há também, do ponto de vista psicológico, uma transição entre a criança que tem de viver em uma família para o adulto que tem de viver em sociedade”. (Montessori, Maria – Os Filhos da Terra, tradução em revisão).

A base de toda a educação Montessori é um conjunto formado por liberdade e independência. Nas crianças muito pequenas, a liberdade se constrói por meio da interação entre a criança e o ambiente, especialmente com os materiais desenvolvidos por observação cuidadosa da natureza humana.

Conforme a criança cresce, suas necessidades mudam, e embora os materiais continuem sendo recursos didáticos interessantes, a formação do homem exige cada vez mais uma educação que vai muito além da sala de aula, e na qual a família tem – salvo raras exceções – um papel mais importante que o da escola.

Montessori propõe três grandes pilares para a educação adolescente
  1. O desenvolvimento do potencial comunicativo;
  2. Educação Moral, Matemática e Linguística;
  3. Educação como preparação para a vida.
As maneiras de desenvolver estes três pilares podem variar muito, e muita liberdade existe aqui, tanto para os pais quanto para os filhos. O desenvolvimento do potencial comunicativo passa, antes de tudo, pela habilidade de socializar com o jovem, e depois, pelo incentivo à comunicação dele com o mundo.

O aprendizado de todas as formas de arte, plásticas, textuais e musicais, deve ser incentivado. O incentivo não pode acontecer por meio da pressão. Mas pode surgir dos hábitos domésticos.

Musicalmente, pode-se escutar música não somente como fundo para um bate papo, mas como atividade exclusiva, por exemplo durante uma viagem de carro.

As artes plásticas podem ser incentivadas com visitas ocasionais a museus – mas o passeio não pode ser vazio de significado, o adolescente deve entender o que vê.

A arte textual é incentivada da maneira óbvia: a leitura. Ocorre, no entanto, que os pais acreditam que basta incentivar a leitura dos filhos ou ler para e com eles. Não é suficiente. A leitura deve, antes de tudo, ser um hábito dos pais. Uma casa sem livros raramente cria uma criança e um adolescente leitores.

A Educação Moral é desenvolvida em conversas. Mas essas conversas não devem ser só sobre as atitudes do filho, porque na adolescência lhe interessa muito a vida no mundo. A política, as organizações sociais, causas e consequências das atitudes tomadas por aqueles que detém o poder são assuntos relevantes para a mente adolescente.

O adolescente busca ser socialmente ativo, e é uma boa ideia permitir e incentivar a participação dele em projetos não governamentais (ONGs, cooperativas, associações). Durante algum tempo, é previsível e saudável que ele queira se engajar politicamente em mudanças sociais. Entretanto, segundo Montessori, nenhum tipo de violência é válido. Assim, tudo o que envolva violência verbal, moral ou física não é recomendada por nós.

As educações Matemática e Linguística podem ser deixadas a cargo da escola. No caso de o adolescente demonstrar uma curiosidade que a escola não consiga satisfazer, procure proporcionar os recursos necessários para o aprendizado. Segundo Montessori, nesta idade o estudo é uma resposta às necessidades da inteligência, por isso, nunca deve ser compreendido como algo obrigatório, mas sim como algo que o corpo e a mente do adolescente pedem. Só é necessário saber o que ele quer estudar, e auxiliá-lo nesta busca se necessário.

A educação como preparação para a vida envolve:

1.       O estudo da terra e das coisas vivas;
2.       O estudo do progresso científico e a construção das civilizações;
3.       O estudo da história da humanidade.

Montessori dizia que uma das buscas do homem é o aperfeiçoamento da natureza, ou como ela coloca: a construção de uma super-natureza. Esta construção se daria por duas vias: o progresso científico e os esforços de paz. As sociedades e a natureza seriam mais perfeitas quanto mais se aproximassem da paz e da compreensão científica da realidade.

Os estudos científicos e históricos, assim como os sociológicos, não precisam ser especialidades dos pais, mas é necessário que os pais estudem sempre, algo que seja de seu gosto, para mostrar aos filhos o prazer do conhecimento. Da mesma maneira, é importante saber identificar as áreas palas quais o adolescente mais se interessa, e dar todo o suporte necessário para o conhecimento florescer.

Hoje, com a internet, é muito fácil ter acesso a todo tipo de informação. Para isso, é necessário que o adolescente conheça línguas além do português. O estudo das línguas estrangeiras é ao mesmo tempo aquisição cultural e de ferramentas, e servirá a diversos propósitos durante toda a vida.

Dois pontos adicionais devem ser abordados aqui. Primeiro, a independência adquirida pelos muito pequenos é a física. Em seguida, dá-se alguns passos em direção à independência intelectual. Para o adolescente, a forma de independência necessária é a financeira. Assim, aprender a lidar com o dinheiro é extremamente relevante, e adquirir um ofício técnico é muito bom para a mente e o corpo do jovem.

Saber executar trabalhos manuais, assim como ter alguma prática com o cultivo da terra e responsabilidades em casa são pontos importantes do desenvolvimento adolescente, desde que todas as suas tarefas lhe sejam atribuidas mais com fins didáticos do que práticos. A habilidade de utilizar a mão para trabalhar é relevante porque o jovem deve perceber que todos os tipos de trabalho são desafiadores e todos devem ser igualmente respeitados. Além disso, conhecendo diversos tipos de ocupação antes de prosseguir à Universidade, poderá escolher seu curso com muito mais certeza e tranquilidade.

Em segundo lugar, nesta idade, o convívio com a natureza é muito importante. Se desejamos criar uma civilização melhor, uma super-natureza, devemos conhecer a perfeição da natureza em toda sua magnitude. Passeios para o campo ou para a praia, trilhas, acampamentos, navegações, todas as alternativas são válidas, desde que o adolescente faça coisas. Ele pode simplesmente observar a natureza, mas é menos válido que vá simplesmente para divertir-se, sem nenhuma ocupação mental. Quando insistimos na ocupação mental, deve-se ao fato já mencionado de que o estudo responde às necessidades da inteligência adolescente.


Para compreender melhor o conteúdo deste artigo, você pode ler sobre “valorização” da alma adolescente, em textos escritos por estudiosos do método Montessori. A pequena pesquisa que o autor deste blog desenvolve é sobre a educação de adolescentes, portanto, ficamos à disposição para tirar quaisquer tipos de dúvidas. Sabemos que as ideias expostas aqui são muito gerais e estamos prontos a auxiliar você em suas questões mais específicas.