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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Normalização I: O Respeito pela Criança

Este texto faz parte de uma série de dois artigos sobre normalização. Este é sobre o respeito à criança. O próximo será sobre a normalização em si, que já foi chamada de milagre da educação e conversão natural da criança, ambas denominações errôneas para um processo que nada mais é além da recuperação, por parte da criança, de tendências que lhe são naturais. Seja bem vindo, e antes de ler este texto, leia o Manual da Criança Montessori, disponível aqui no Lar!

   "Montessori segue os caminhos da Natureza", disse E.M. Standing, explicando o ponto de apoio mais importante de todo o método Montessori. Temos sempre de lembrar que a Natureza sabe o que faz, e que os maiores milagres só podem ser operados pela natureza sendo deixada em liberdade para agir dentro e fora da criança. A natureza aprisionada perde sua magia - vemos isso claramente nos pássaros que nascem livres e são engaiolados, nos peixes capturados do mar, nas meninas e meninos que são colocados, contra a vontade, em clausuras e mosteiros.

Nasce daí uma obediência que pode ser interpretada como virtude, mas também nasce daí a diminuição da vontade de viver, e os seres vivos aprisionados deixam de emanar aquela energia que é tão bela de se ver numa criança livre, em um pássaro em liberdade ou em uma mata virgem: a Natureza livre não recebe esta liberdade de ninguém, ela nasce assim e só com esta liberdade mantida é que pode operar as maiores maravilhas do mundo.

A criança nasce livre. Se nós a mantivermos livre, ela, como todos os outros seres da natureza, agirá conforme sua capacidade e exigirá do mundo conforme sua necessidade. Se for deixada em liberdade, não irá querer mais do que precisa, não irá rejeitar o pouco de que precisa, irá se comportar como seu ambiente natural permite: com amor ao silêncio, amor ao esforço-aprendizado e amor à ordem interna e externa. Estas são as direções inatas da criança que Montessori percebeu por suas observações e que Standing tão sabiamente sumarizou em seu "Maria Montessori: Her Life and Work".

Qualquer pai, mãe, irmão ou professor percebe algumas coisas em crianças muito pequenas: elas gostam de silêncio ou sons bastante suaves, mas o barulho incomoda muito, quase machucando. Gente falando muito alto com elas também é ruim, assim como pessoas muito bem intencionadas que falam com "voz de bebê", ou pessoas ainda melhor intencionadas que lhes presenteiam com DVDs de programas de televisão, desenhos animados ou programas educativos. Elas gostam de silêncio, músicas baixas, suaves e tranquilas, sons da natureza e a voz humana em volume e quantidade moderada.

Todos nós também sabemos que crianças são curiosas. É por isso que não deixamos medicamentos ao alcance de crianças, que tomamos cuidado com brinquedos com peças pequenas que podem ser engolidas, que procuramos esconder todas as tomadas, colocar uma portinha na escada, ficar sempre de olho quando o fogo está aceso, e também é por isso que perdemos a calma com seus "por quês?", "comos?" e "quandos?". Evitamos que coloquem coisas na boca e que coloquem a mão em animais perigosos ou peçonhentos.

Por último, sabemos intuitivamente que as crianças amam a ordem, embora nem sempre respeitemos isso. Sabemos que gostam de roupas claras e suaves, que seus quartos lhes agradam mais quando tem poucas coisas, que elas não precisam de muitos brinquedos, de muitos objetos ou de muitos materiais, que lhes basta muito pouco para se sentirem realmente bem e que tudo de que necessitam é que esse pouco seja muito bem escolhido, muito limpo e muito bem organizado. Nada precisa ser muito, ser grande ou ser caro, basta que seja muito bem cuidado e organizadinho.

   Acontece, porém, que como não respeitamos sempre essas necessidades da criança, acabamos por reprimir (e eu não gosto muito dessa palavra, mas é isso) a natureza dela e forçamo-la a adotar posturas artificiais diante do mundo. É por isso que crianças que nasceram amando o silêncio acabam gostando de programas de televisão e desenhos animados irrealistas e violentos, é por isso que os pequenos bebês curiosos aos poucos se tornam cansados e apáticos diante do mundo e crescem como alunos que perguntam se "vai cair na prova" em vez de perguntar "Por quê?" e é também por isso que aquelas criancinhas que adoravam tudo no seu lugar acabam por largar tudo no meio do caminho e por jogar tudo no chão em sinal de protesto.

O respeito à natureza da criança vem de duas formas bastante simples, na verdade, e que englobam todas as outras formas menores: respeito pelo espaço e pelo tempo.

   O respeito pelo espaço da criança é manifestado pela escolha sábia daquilo que será útil. Não é útil comprar dez brinquedos antes de a criança nascer. Nem é útil que ela tenha vários brinquedos de um mesmo tipo ou qualquer coisa assim. Este tipo de presente alimenta uma forma nada natural de vontade de possuir.

É útil dar à criança aquilo que suas atividades ou manifestações pedem. Quando ela começa a querer ouvir sons mais de perto ou a provocar sons com o corpo e com o que está em volta, é interessante lhe dar pequenos instrumentos, chocalhos, o violão da família, ou mesmo permitir que batuque em potes, móveis da casa e lhe oferecer músicas clássicas, instrumentais e sons da natureza. Da mesma forma podemos estimular todos os outros sentidos.

Outro ponto muito importante para o respeito ao espaço é organizar a casa. Casas com crianças precisam ser casas arrumadas. Eu sei que é difícil, mas é assim que tem que ser. É da sua capacidade de organizar o caos que advirá a capacidade da criança de manter tudo organizado. A ordem lhe agrada, e agrada muito, mas ela só sabe que gosta de ver tudo organizado, não nasce sabendo organizar. Então, precisamos guardar as coisas que ela desarruma durante alguns anos, depois, aos poucos, podemos ensiná-la a guardar também. Tu-do or-ga-ni-za-di-nho!

Para tudo ficar em ordem e essa ordem poder ser percebida, não pode haver muita coisa. Um quarto de criança montessoriano é um quarto clean, minimalista (aprendi a palavra esses dias e adorei), quase vazio. Tem o necessário, e o necessário sempre é pouco.

O último ponto muito importante de respeito ao espaço da criança é que a casa inteira deve ser o ambiente dela (menos a cozinha, porque no começo é um ambiente perigoso demais. Aos poucos esse pode ser explorando junto com você e aos dois anos o acesso já pode ser livre). Não deve haver um quarto completamente adaptado ao seu tamanho e todos os outros com coisas grandes e inalcançáveis. Se você não conseguiu adaptar a casa toda ainda, feche as portas ou coloque grades nos ambientes não adaptados, assim você lembra que precisa adaptar o mais rápido possível e ela não se frustra por ser mais baixa que todo o resto do mundo.


   O respeito pelo tempo da criança é ainda mais simples: basta compreender que o ritmo dela é completamente diferente do seu. Algumas coisas, para você, são rotineiras e desimportantes. Para ela, nada é um hábito. Ela acabou de chegar no mundo, ainda não sabe como as coisas funcionam. Fechar o zíper é uma experiência sensorial, amarrar o tênis é um desafio motor, subir em uma escadinha é uma aventura cheia de suspense.

Dizer para ela ir mais rápido não adianta, porque não faz o menor sentido. Ela não entende porque alguma coisa é mais importante do que aquilo que ela está fazendo no momento. E na verdade ela está certa, nada é mais importante. Ela está construindo um ser humano lá dentro dela. Está desenvolvendo as habilidades necessárias para a manutenção da civilização. Ela é responsável pelo trabalho mais nobre do mundo e deve ser respeitada e admirada por isso. Hierarquicamente, a criança sempre estará acima de nós, porque é ela que nos cria.

Precisamos organizar o nosso tempo para que possamos respeitar o tempo dela. Se sabemos que demora demais para comer, precisamos começar a almoçar mais cedo. Se demora muito para se vestir, teremos de marcar o passeio para mais tarde. Ela vai demorar bastante para muita coisa, quase sempre, e vai querer repetir tudo de que gostar. A repetição é fundamental e agradável para ela. Permita.

Respeitar o tempo não significa desistir da rotina. Veja o texto sobre rotina e ritual para entender melhor esse assunto, mas saiba desde já: estabelecer um horário para dormir é bom, mas isso não deve ser forçado demais. A criança pode indicar devagar qual a hora mais apropriada para seu sono, ou você pode induzir devagar um horário necessário para a família. A mesma coisa para comer. Pode haver horários para as refeições, mas eles precisam respeitar o apetite dos pequenos. 

  Tenho certeza de que fazendo tudo isso você estará respeitando a natureza da criança que vive com você. E uma natureza respeitada leva inevitavelmente a uma vida mais prazerosa, mais cheia de energia, de sorrisos, de alegrias e de contentamento. Haverá episódios de manha, de rebeldia. Analise essas situações, tente entender porque elas aconteceram. Não se vingue com broncas fortes demais ou palmadas. Entre vocês dois, você tem de ser o ser humano que sabe mais e o mais maduro. Ela está aprendendo, e está criando, lá nas profundezas de sua natureza, um próximo ser humano, sábio e maduro também.

sábado, 9 de junho de 2012

Ordem em Família III: Rotina e Ritual




"-Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos." (Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)


Jacqueline Cossentino, pesquisadora de Educação e doutora por Harvard, passou algum tempo pesquisando uma escola Montessori e percebeu algo interessantíssimo que publicou em um artigo chamado “Habilidade de Ritualização: Uma visão não-montessoriana do Método Montessori”. Jaqueline sugeriu que dois itens que fazem parte da ordem do ambiente montessoriano e a utilização do tempo e o comportamento das pessoas. É uma visão extremamente valiosa.

Montessori descobriu que uma das tendências da infância é ter afeição à ordem, em todos os sentidos. Já escrevemos aqui no Lar o quando é importante que o ambiente onde vive a criança seja muito bem organizado, e nas últimas semanas explicamos como é importante que a fala dos pais seja clara e precisa. Toda essa organização se estende para a utilização do tempo com a família e para o comportamento dos pais.

A previsibilidade gera um imenso conforto para a criança, pois possibilita a sensação de certeza e a sensação de domínio sobre a vida e o mundo, que é muito importante para o desenvolvimento da personalidade, especialmente no que diz respeito à auto-estima e auto-confiança.

A utilização de agendas pode ser
uma boa ideia com crianças maiores.
A agenda da criança precisa ser bastante bem definida, inicialmente pelos pais, a partir da observação dos horários naturais da criança. É importante permitir que ela expresse como funciona seu relógio biológico e que a partir dele uma rotina seja criada. Quando a criança estiver indo para a escola ou fazendo atividades como ballet ou esportes, torna-se relevante que estas tenham um dia e um momento também. A brincadeira com os pais, é claro, pode acontecer a qualquer momento, mas que haja um momento diário de estar junto ainda que os pais estejam cansados demais para brincar, que seja para conversar, estar perto, ler uma história. Isso não deve ser acidental nem incidental, deve ser muito bem programado pelos pais, mesmo que a criança não tenha acesso à programação. A regularidade a ensinará quando esperar os pais para algo e quando não, por exemplo, evitando assim a frustração pela ausência deles.

A utilização de rituais também traz a sensação de domínio sobre o mundo (e aliás, é exatamente para isso que os rituais servem desde tempos imemoriais) e torna possível à criança organizar suas atitudes diante das diversas ações mais frequentes de seu dia-a-dia. Desde coisas muito simples, execute as ações com ele sempre na mesma ordem. Para se trocar, por exemplo, a ordem pode ser “sapato-meia-calça-cueca/calcinha/fralda-camiseta” ou o contrário, mas faça sempre do mesmo jeito. Na hora do banho também, ensaboe sempre determinadas partes do corpo primeiro e outras depois, e enxague na mesma ordem. Ao servir a comida, procure organizar os pratos em ordens semelhantes sempre, ex: “salada-prato quente-fruta”. Quando é que se escova os dentes? Como é que se escova os dentes? Ensine-o a fazê-lo em uma só ordem, para que a sequência seja gravada.

De manhã cedo como se faz? Levanta-se, lava-se o rosto e coloca-se a roupa? Utilize sempre a mesma sequência. Para nós, adultos, variar pode ser interessante, mas para a criança é confuso. Na hora de dormir, coloca-se o pijama primeiro, e depois se escova os dentes e se deseja boa noite? Antes de dormir o que se faz? Reza-se, lê-se? Inicialmente parece que é muito para pensar de uma só vez, mas você vai perceber que na verdade já tende a fazer tudo do mesmo jeito todos os dias, é mais uma questão de organizar os detalhes.

Seu filho ou sua filha terão uma compreensão muito maior da própria vida se puderem contar como foram seus dias, e isso funciona melhor quando existe uma ordem para suas ações. Assim, eles perceberão que dominam tudo o que fazem, e que conhecem o momento de cada afazer, e que sabem exatamente como cada ação de seu dia-a-dia é executada, sem confusão e sem muitas exceções. Isso tenderá a auxiliar a criança a se conhecer melhor, a confiar mais em suas capacidades de ação e a construir sua própria liberdade. Muito boa sorte!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ordem em Família II: Prêmios e Castigos


O método Montessori, por compreender que a criança é capaz de melhorar pelo prazer de se aperfeiçoar e por reconhecer que o maior prazer do aprendizado está no processo de aprender e não no que foi aprendido, é veementemente contra prêmios e castigos, no entanto, sei que este tema é polêmico, e reforço: a intenção do Lar Montessori não é avaliar a educação que você dá para sua criança. Nós estamos aqui para ajudar, para transmitir opções que julgamos interessantes e para contar o que uma das maiores mentes do século XX sugeriria para nós, do século XXI.

O maior prazer que podemos ter é aquele de estarmos satisfeitos conosco mesmos, de perceberemos que somos capazes de nos comportar como desejamos. Aliado a este está o talvez ainda superior prazer de aprender. A alegria de enxergar o mundo melhor do que enxergávamos antes e de, portanto, dominá-lo mais, só é comparável a alegria de dominarmos a nós mesmos. Desta forma, devemos nos esforçar ao máximo para que a criança possa sentir, em seu tempo e sem nenhum tipo de pressão externa, este tipo tão saudável de bem-estar.

Montessori conta uma história divertida. Certa vez, estava em sua sala de aula, em San Lorenzo, quando um senhor entrou na escola, como visita, para conhecer seu trabalho, já famoso à época. Ele trazia um saco com doces e bombons que iria dar às crianças. Entregou o primeiro para uma menininha que havia conseguido, com sucesso, desenvolver uma atividade complexa: ela deveria somar quantidades menores que dez de forma a chegar em 10 de diversas maneiras. Ela agradeceu pelo bombom, e com ele continuou a atividade, o utilizando para “bater” nas pecinhas que contava, de forma a contá-las com mais atenção.

Em uma outra situação, um garoto que teve um comportamento muito bom recebeu uma medalha de metal para pendurar no pescoço. Deveria ficar com ela sentado a uma cadeira, para servir de exemplo aos colegas. Um outro rapazinho, não tão bem comportado, veio até ele e lhe perguntou se podia usar a medalha. Imediatamente ele a tirou do pescoço e, com um olhar aliviado, voltou ao trabalho.

Montessori ainda reforça estes exemplos, explicando que a sensação de ser parabenizado após um aprendizado é de humilhação. Seria a mesma sensação de um cientista que, depois de ter descoberto a antimatéria ou a cura do câncer, recebesse uma medalha e tivesse de ficar sentado como exemplo para seus colegas. A vocação de um descobridor não é essa, seu prazer é o trabalho e o conhecimento, e assim é com todas as crianças.

Presentear uma criança pelo seu bom comportamento seria como dar um bombom a um monge que conseguisse manter o silêncio e a castidade. Seu prêmio é o amadurecimento de sua personalidade, a sua ascenção espiritual. O único que lhe poderia presentear não está entre nós.

Da mesma forma, o castigo não é uma prática saudável. O castigo reforça o erro, faz a criança pensar sobre o que fez de errado, e o que fizemos de errado não nos ensina. Ensina-nos, antes, repetir o comportamento certo, tanto o nosso quanto o alheio. Buscar alternativas dentro do que sabemos ser correto ou desejável. É sobre isto que devemos meditar, e não sobre o erro. Quando uma criança é colocada no quarto sem televisão, ou quando é privada de algum de seus prazeres por ter cometido um erro, existem dois sentimentos possíveis: o surgimento da raiva e o sentimento de culpa. Nenhum dos dois é produtivo para o aprendizado.

Quando houver um comportamente inadequado, não julgue a criança, julgue a ação. Em vez de dizer: “Que menino mal educado você é!” ou “Que garota mimada você está sendo hoje!”, diga “Seja gentil com sua avó, ela não gostou do que você disse” ou “Você já pediu coisas demais hoje, não podemos ter tudo sempre”. Novamente, é claro que de vez em quando perdemos a calma, exatamente como as crianças. E exatamente como devemos fazer com elas, devemos evitar a culpa, e procurar a melhora do comportamento.

Quando a criança for mais velha, vale a pena abordar as questões pelo lado racional. A partir dos seis ou sete anos, ninguém mais se satisfaz com “Menino mau!” ou “Bom garoto!” e nenhuma criança aceita que lhe digamos “Não faça isso” ou “Aja assim, e não daquela forma!”. É necessário, a partir de então, expor os motivos pelos quais determinadas ações são interessantes e produtivas e outras atitudes são inapropriadas e incomodam os que estão à volta.

Como conclusão, acho importante ressaltar que Montessori não evitaria nunca o carinho, a conversa franca e, por que não, o elogio. Tudo isso pode existir, sim, mas devemos ter em mente que não somos nós que recompensamos a criança pelo seu amadurecimento pessoal e pelo seu aprendizado. É ela mesma, sua mente e sua percepção da própria evolução.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ordem em Família I - Autoridade


O texto abaixo faz parte de uma sequência de três artigos a serem publicados nas próximas semanas. Este, primeiro, é sobre autoridade. O segundo será sobre prêmios e castigos e o terceiro sobre rotina.
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“- Se eu ordenasse que um general voasse de flor em flor como uma borboleta, ou que escrevesse uma peça de teatro, ou que se tornasse uma gaivota, e se o general não executasse a ordem que recebeu, qual de nós estaria errado? – O rei perguntou – O general ou eu?
- Você – respondeu o pequeno príncipe, com firmeza.
- Exatamete. Só se deve exigir o que as pessoas podem cumprir.  – O rei continuou – A autoridade que é aceita apoia-se, antes de tudo, na razão. Se você ordenasse a seu povo que se jogasse no mar, eles se levantariam em revolução. Eu tenho direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.” – Antoine de Saint Exupéry, em O Pequeno Príncipe.

Celma Perry, uma brasileira que é fundadora do Seton Montessori Institute, em Chicago, conta que certa vez estava em um consultório médico esperando ser chamada e que na sala de espera estavam um homem adulto e sua filha. A menina era aluna de Celma. A criança não parava, corria pela sala, subia nas cadeiras, fazia barulho. Celma, sabiamente, só observava, o pai estava presente e não era papel dela interferir, mas aos poucos a professora percebeu que o homem estava ficando nervoso, e que mais hora menos hora, alguém ia explodir, e alguém ia cair na choradeira.

Celma Perry, do SMI
Quando o pai estava a ponto de dar uma bronca na menina, Celma apontando para o tapete cheio de bolinhas azuis, começou a contá-las: uma, duas, três, quatro... E a menina então parou, olhou para o tapete, reparou nas bolinhas, e contou-as, por muito tempo. Celma relaxou, e o pai também, agradecendo à professora da filha pela ajuda.

A autoridade Montessori só é exercida em forma de bronca, em volume alto, em último caso. Se a criança está correndo risco físico ou fazendo com que mais alguém corra, ou se está prejudicando o ambiente de alguma maneira, vale tudo. O ideal é conseguir parar a criança sem a bronca, mas se a ela for necessária, melhor isso do que um ferimento. A pergunta que sempre fica é: E depois que parar, eu ensino onde ela errou?

Bom, não. Depois que parar, ensinamos o jeito certo, e não onde estava o erro. Ensinar o erro é reforçá-lo, é marcá-lo mais profundamente na mente da criança, é fazê-la aprender o errado, ainda que seja para não fazê-lo. Pais e mães não querem filhos inativos, apáticos, imóveis. O que desejam é que seus filhos sejam positivamente ativos, acertadamente animados, que se movimentem gentilmente no ambiente. Assim, não adianta dizer “Pare!”, “Não faça isso!”, “Não toque aí!”. Adianta, antes, parar a criança no momento de risco, se ele existir, e então explicar: “Quando você quiser pegar algo de vidro e for muito grande e pesado, peça ajuda. Se couber nas suas mãos, pegue com as duas mãos e devagar, assim...” ou “Em sofás a gente coloca o pé sem sapatos. O tecido é macio, coloque a mão aqui... Viu? Tire os sapatos e pode subir” ou, ainda sobre o sofá, “Cuidado, o sofá é fofo, está sentindo? O chão é duro. Caminhar no chão é melhor do que no sofá, no sofá você pode deitar e sentar de várias maneiras”.

É claro que eu sei que perdemos a calma de vez em quando. Acontece, e não há porque nos culparmos muito quanto a isso. Somos todos humanos. Pedir desculpas é bom, mas só se a falha foi grave. Não peça desculpas por qualquer bronca, afinal, pedir desculpas é reforçar o erro, e às vezes a criança nem lembra mais. Vale a pena se esforçar, isso sim, por mudar o comportamento da próxima vez.

Ordens devem ser dadas sempre como ordens, mas nunca sem gentileza. A criança ainda não tem pressupostos nem subentendidos, e precisa que tudo lhe seja colocado muito claramente para que compreenda. Quando algum comportamente for importante, seja claro: “Quando entrarmos no museu, fale baixo”, ou “Na casa da sua tia, não pegue nos copos de cristal, ela não gosta”, ou ainda “Vá tomar banho, temos que estar prontos logo para sair”. Tenha em mente que Só se deve exigir das pessoas o que elas pessoas podem cumprir e não peça para seu filho tomar banho em cinco minutos se ele invariavelmente demora quinze. Caso essa rapidez seja necessária, seja ainda mais claro: “Entre no banho, deixe cair só um pouco de água no seu corpo, passe rápido o sabão e o shampoo, enxague-se, lave bem as axilas e a genitália e seque-se rápido também, combinado?” (em Montessori aconselhamos a ciência sempre, e utilizamos os nomes científicos reais para todas as partes do corpo: pênis, vagina, ânus. No entanto, caso prefira, não há nenhum problema em se utilizar apelidos carinhosos em geral).

Ordens e favores são duas coisas diferentes. A criança pode escolher não fazer favores, mas não pode escolher não cumprir uma ordem. Por isso, a sua fala precisa deixar muito claro quando um favor é pedido e quando uma ordem é colocada – lembre-se, seja sempre, sempre, sempre gentil. Um favor pode ser colocado como: “Querido, você pode pegar os meus óculos na mesa, por favor?”, e uma ordem precisa ser colocada como “Querido, suba, pegue sua mochila e vamos para a escola”. No entanto, tenha em mente: embora pedir favores, quando são necessários, não seja errado, é sempre muito bom expressar a sua independência e mostrar que você pode pegar seus óculos, para que a criança aprenda que pode fazer as coisas dela sozinha, também.

Mães e pais com autoridade nunca são mães e pais autoritários. Repare que a autoridade existe quando a criança compreende o aduto. Autoritarismo existe quando o filho teme os pais. Aja sempre de forma razoável e procure educar pelo exemplo. Se você pedir silêncio, mas falar alto, se você pedir ordem, mas for bagunceiro, se pedir que seu filho leia, mas só assistir TV, esqueça, não há como ser obedecido. Mas se souber mostrar como se age certo, as chances são de que mandar quase não seja necessário!

domingo, 18 de março de 2012

Passeios à Natureza - Amando e Conhecendo o Universo

Você leva suas crianças a parques? Se sim, parabéns! Se não, tire um tempinho para fazer isso com alguma frequência. O contato com a natureza é fundamental para o desenvolvimento do seu filho. Parques, praças e bosques, assim como praias, oferecem ambientes com muitos estímulos sensoriais para os pequenos, mas de forma suave, sem poluição visual ou sonora.


O contato com a natureza oferece uma quantidade muito grande de possibilidades e assim desperta a curiosidade a um ponto que a casa dificilmente conseguiria. Um dia no parque pode plantar sementes de curiosidade e questões para uma semana inteira, dependendo da idade da criança (isso é especialmente verdadeiro para a faixa etária de três a seis anos). Esteja preparado para responder a estas questões e voltar à natureza em seguida.


Quando a criança é muito pequena, é bom ir ao parque de manhã, quando o sol é fraco e ela está bem desperta, assim pode-se sentar na grama, e ela pode brincar um pouquinho com o entorno, mesmo que não possa se aventurar muito longe. Ficar perto de uma árvore é uma boa ideia, já que só um pequeno espaço incluindo a árvore oferece sombra, raizes, tronco (e sua casca), folhas, terra, grama e quem sabe frutos ou flores. Insetos estarão por perto também, não tema todos eles. Pequenos besouros, joaninhas, grilos ou gafanhotos, borboletas e bicos-pau não são arriscados e maravilham qualquer pequeno explorador.


É claro que é bom evitar abelhas (se as cores que vocês vestirem forem suaves e não houver açúcar nas comidas e bebidas, elas não vão aparecer) e se você não conhecer quais aranhas picam e quais não, espante todas. Mas pare por aí, outros bichinhos são mais uma fonte de conhecimento do mundo do que uma ameaça.


Montessori dizia que não é suficiente amar a criança. É necessário antes conhecer e amar o universo. Ame o universo. Procure se maravilhar com a natureza, assim como seu filho, adote de novo o olhar do explorador, que acha incrível uma folha avermelhada e se surpreende com um pássaro colorido. Mostre essas coisas a ele, não como um professor, mas como alguém que também acha tudo aquilo belo e surpreendente.


Permita que a criança passeie, que pare onde mais lhe interessar, que pegue coisas, que se suje um pouco (ou muito, a depender da sua tolerância), que fique muito tempo parada olhando algo que você sequer percebeu que existia ou que simplesmente não olhe para algo que fascinou muito a você. A maneira de pensar e de ver deles são muito diferentes da sua.



Mostre ao seu filho, nas próximas idas ao parque, como a natureza funciona. De forma descontraida e informal, mostre os ninhos dos passarinhos e explique que são as casas deles, mostre girinos e explique que são os filhotes do sapo, mostre as abelhas e as borboletas nas flores e explique que estão se alimentando e fazendo mel. Com o tempo, explicar a polinização pode ser muito interessante. Sim, você vai ter que estudar muita coisa de novo, mas não vale a pena? Para maravilhar sua criança com a natureza?


Algumas crianças, especialmente as mais velhas, podem recusar-se a ir ao parque ou ao bosque, dizendo que preferem ir ao shopping, ao parque-de-diversões ou à casa de um amiguinho. Embora nenhum desses passeios seja reprovável em si (não recomendamos o shopping para crianças, é excesso de estímulo), é importante que os pequenos saibam admirar o silêncio, perceber um canto de passarinho e o zumbido de uma mosca ou uma abelha. Só por meio do contato com a natureza é possível amá-la, e só por meio do amor a ela é possível respeitá-la - assim, se você quiser que seu filho saiba preservar o ambiente em que vive, mais um motivo para dar a ele oportunidades de curtir esse mesmo ambiente.


As maravilhas e as surpresas da praia são outras, e tão belas quanto as do parque. Quando der, leve seu filho, mesmo muito pequeno, ao mar. Brinquem nas primeiras ondas, molhem-se, façam castelinhos de areia e peguem caranguejinhos e conchas. Tudo isso ensina. Com tudo isso se aprende.


A textura da areia e as cores dela, o fato de nem sempre o castelo ficar de pé, a dificuldade de pegar um animalzinho que se mexe e o material de que é feito uma concha (assim como o brilho da parte de dentro dela) são aprendizados para a criança pequena. Pode ser que surja uma coleção de conchas, neste caso, tente descobrir os nomes delas e ensine-os ao seu filho. Crianças adoram categorizar coisas e estão em uma excelente idade para adquirir vocabulário, inclusive o científico, que não tem nada de difícil, e assim parece para nós por puro preconceito. Levar a criança um pouquinho mais velha (trës ou quatro anos pelo menos) até aquários pode ser fantástico também. 




O terceiro fascínio natural a que podemos e devemos expor a criança é o céu. Se houver a possibilidade de uma viagem curta até um local com pouca luminosidade (casas de familiares no interior, ou uma praia menos popular, por exemplo), mostre as estrelas, a Via-Láctea, identifique constelações e dê os nomes e as histórias delas aos pequenos. Amem e conheçam o universo.


Viver no Brasil tem muitas vantagens neste ponto. Nosso país é privilegiado naturalmente e oferece-nos uma abundância inimaginável de biodiversidade. Além disso, nós temos um escritor infantil que mostrou de forma belíssima as belezas e a perfeição da natureza em seus livros. Monteiro Lobato, especialmente em "A Chave do Tamanho", "Reforma da Natureza" e "Viagem ao Céu" mostrou como o mundo natural e o universo podem ser formidáveis. É uma boa ideia ler os livros com seus filhos de quatro a dez anos.


Quando forem ao parque, tirem fotos! Vai valer a pena mais tarde. E se você quiser, mande para a gente, e publicamos aqui. Envie para gabrielmsalomao@gmail.com contanto como foi o passeio e o que vocês viram de interessante.


Bom passeio!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Pequenas Ações Diárias

Após um longo período de repouso, o Lar Montessori volta à ativa. Pedimos desculpas aos nossos leitores, por esta longa ausência. Pedimos também que os leitores comentem as postagens, para que saibamos o que vocês acham. Estamos pensando em aumentar a equipe aqui, e um feedback é importante.

Quero lhes contar sobre a ONG Me to We. Eles são um grupo idealista que busca reeducar as pessoas para que elas, compreendendo melhor o valor da vida solidária, passem a agir melhor do ponto de vista coletivo. Este grupo fascinante publicou recentemente um livro com prefácio pela Sua Santidade o Dalai Lama, chamado "The World Needs Your Kid" (O Mundo Precisa do Seu Filho).

Neste livro, três autores muito lúcidos dão sugestões para se criar uma criança que contribua e se importe. E lendo este livro, eu me convenci: Algum dos autores leu Montessori muito cuidadosamente. Há influências Montessori demais na obra para que seja possível dissociar uma coisa da outra. Entrarei logo em contato com os autores para me informar melhor sobre isso.

Por agora, quero dar a vocês um gostinho deste livro que, além de muitíssimo informativo, é lindo. Escolhi uma coluna de uma página, intitulada "Pequenas ações diárias":

1. Dê um passo para trás, para que a criança possa dar um para frente:
Se você amarrar os sapatos dele para sempre, ele nunca vai tentar sozinho. Se você sempre intervier em conflitos, ele talvez não tente resolver as coisas por si mesmo.

2. Tenha paciência com a tentativa e erro:
Derrubar leite não é motivo de escândalos, especialmente tratando-se de um pequeno e ambicioso filho aprendendo a se servir. Ajude seu filho a lidar com as consequências: "Aqui está um pano para enxugar..."

3. Apresente opções:
Permita à sua criança escolher - sempre que possível - e aceite estas escolhas. Fazer isso demonstra sua confiança em suas habilidades. 
Este princípio vale inclusive para muito pequenos. A criança, ainda sem falar, já é capaz de escolher uma cor, um caminho, um material de trabalho ou um brinquedo. Ela também é capaz de escolher se quer ficar acordada ou se quer dormir. Sempre que possível, permita esta escolha.

4. Cozinha baixa:
Mova os pratos para uma estante mais baixa, para que as crianças possam ajudar a pôr a mesa. Não importa qual a tarefa, dá-las às crianças ensina responsabilidade e mostra a elas como são indispensáveis para o funcionamento da família.
Novamente, a criança muito pequena pode se beneficiar disto, mesmo que não consiga pôr a mesa, de maneiras que explicamos em posts anteriores. E não se preocupe: um prato ou um copo vão quebrar de vez em quando - faz parte da vida. Ensine a criança a segurar tudo direitinho e a limpar os cacos.

5. Trabalhe com o dinheiro:
Se você dá uma mesada ao seu filho, encoraje-o a dividí-la em três partes: guardar um pouco, gastar um pouco, compartilhar um pouco.

Lembre-se de que esperamos ansiosamente pelos seus comentários! Se você achar que deve, espalha este blog, repasse estas ideias, cole num e-mail para um amigo... Lembre-se de dar os créditos do livro de onde isto foi tirado, e ressalte que nossas traduções são independentes e sem nenhum fim lucrativo. Optamos, inclusive, por recusar propagandas neste blog.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Pequenas Coisas

Quem tenta ajudar uma borboleta
a sair do casulo a mata.
Quem tenta ajudar um broto
a sair da semente o destrói.
Há certas coisas que
não podem ser ajudadas.
Têm que acontecer de dentro para fora.
(Rubem Alves)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Questão da Liberdade

Amigos da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo leram alguns livros de e sobre Montessori e tiveram mais dúvidas que certezas. Pediram-me para conversar sobre a realidade das escolas Montessori e eu achei por bem colocar aqui as dúvidas e respostas principais. Espero que lhes seja útil.

Eu possivelmente utilizarei sem perceber frases inteiras dos livros The Montessori Controversy, Montessori: Her Life and Work, Montessori: The Science Behind the Genius e talvez de obras de Maria Montessori, que não listarei aqui porque são variadas demais. Peço antecipadas desculpas e em avanço aviso: os louros das explicações abaixo cabem a McNichols, E.M. Standing, Angeline Lillard e Maria Montessori. Possíveis erros, no entanto, devem-se a uma leitura não tão atenta das obras destes pesquisadores, e aí a culpa é minha mesmo.

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A questão da Liberdade:
Possivelmente este seja o conceito de Montessori mais controverso e mal interpretado por curiosos, pais e professores (montessorianos ou não). Alguns sugerem que Montessori é um método militaresco, outros que se trata de um método anarquista. Alguns dizem que há excessiva disciplina em sala, outros que é um sistema livre demais. É evidente que a verdade não se encontra em nenhum dos extremos, no entanto não está simplesmente no meio do caminho entre o militaresco e o anarquista.

Um método que se baseia na observação científica não pode pressupor que o professor intervenha o tempo todo no desenvolvimento do aluno, pois seria como adicionar novos elementos a uma experiência de laboratório enquanto o processo se dá. Para que cada criança possa ser compreendida em sua totalidade, e assim ser bem orientada, é necessário que ela possa se manifestar livremente o suficiente para que o professor/observador/pesquisador (um educador Montessori é tudo isso) possa constatar que caminho deve ser tomado com aquele ser em formação, com todas as suas idiossincrasias.
Há que se atentar, portanto, para dois tipos-chave de comportamento, que determinarão o nível de intervenção do professor. A criança pode estar a desenvolver dois grandes tipos de atividade: atividades edificantes ou atividades não-edificantes.


  • Atividades edificantes: são aquelas que, de alguma maneira, contribuem para o crescimento intelectual, social ou emocional do ser em formação. Em uma escola Montessori, são as atividades propostas com os materiais, ou atividades que a própria criança desenvolva mas nas quais se perceba, via observação, que há um engajamento do pequeno humano.
    • Por ter passado anos observando as crianças na lida com os materiais, Montessori prevê muitos dos usos edificantes deles. Por isso é possível saber muito rapidamente se a criança está a desenvolver alguma atividade ou se se trata de brincadeira somente. A brincadeira tem lugar no método Montessori, mas tem lugar e tempo apropriados.

  • Atividades não edificantes: à parte da brincadeira, que não tem nada de mau em si mesma, algumas crianças, que geralmente estão há pouco tempo numa escola Montessori e que foram de alguma maneira mimadas ou negligenciadas pelos pais, exercem atividades que causam danos a si mesmas, ao ambiente ou a outras crianças.
    • Em caso de atividades que causem dano ao ambiente (destruição de materiais, utilização inadequada dos mesmos ou atitudes socialmente inadequadas), o professor deve "ensinar ensinando, e não corrigindo", de maneiras que Montessori explica em seus livros, o professor não corrige a criança levando-a a se tornar inativa ("não faça isso!", "pare!","quieta!","chega!"), mas sim de maneira a engajá-la em algo digno de seu tempo e vontade, sugerindo uma nova atividade, que a ela interesse e a que ela queira se dedicar com afinco. A atividade ideal é descoberta via observação científica.
    • O bem-estar social da sala também é parte importante do método, e se uma criança atrapalha o bem-estar social da sala inteira, ela terá de deixar de fazê-lo, em nome de todo o grupo. O professor deve, para isso, engajar a criança em alguma atividade de seu interesse, ainda que ela não esteja prevista nos materiais. Primeiro se resolve o problema de toda a sala, em seguida resolver-se-ão as dificuldades daquela criança específica.
    • Em caso de atividades que causem dano ou perigo a si mesmas ou a outras crianças, o professor pode ultrapassar alguns limites pedagógicos e até impedir a criança fisicamente de realizar a atividade. Afinal, pode se tratar de uma perna, um dedo ou uma vida em perigo, e então o cuidado ultrapassa a ciência.


No caso de o aluno estar a exercer algum tipo de atividade edificante, não importa quão lentamente ele esteja evoluindo, o professor não deve interferir. A interferência deve vir somente caso a criança cause dano a si mesma ou ao grupo, via atividades que não a farão crescer de nenhuma maneira.

O professor deve, sim, estudar a criança em profundidade, para saber a hora certa de apresentar um novo material ou um novo conteúdo. Há de se perceber a manifestação externa dos anseios internos da criança e, a partir dela, decidir-se qual material ou conteúdo levar para o pequeno ser. Isto tudo é ensinado em bons cursos de formação de professores Montessori e nos livros da autora. O professor deve ser bem preparado e decidir tudo com base na ciência e na observação.

Crianças trabalhando em sala de uma escola Montessori.