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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Pequenos Artistas – a criança e a arte em Montessori


Por meio de suas longas observações, Montessori percebeu que a criança passava por diversos períodos sensíveis. De zero a seis anos, a criança está numa fase de intensa absorção de seu ambiente e ao mesmo tempo se trata de um período durante o qual os sentidos estão à flor da pele, buscando serem educados. Os materiais Montessori para primeira infância trabalham justamente com a ideia de educação sensorial, assim, há séries de materiais que educam os olhos para a discriminação minuciosa de cores e tons, para a identificação de formas geométricas mais e menos semelhantes, para texturas, pesos e tamanhos com gradações de variação, do óbvio ao quase imperceptível.

Crianças de cinco anos já são capazes, por treino voluntário, de identificar notas musicais, formas geométricas as mais variadas, sessenta e quatro tons e cores e são capazes de perceber acuradamente diferenças de tamanho, peso ou textura. Este seria, para Montessori, o início do treino dos sentidos necessário à apreciação artística. Os olhos estariam educados para notar a utilização de cores e formas, os ouvidos para perceber a melodia, as mãos para sentir e para criar, já que há razoável abundância de materiais que treinam o controle motor dos braços, mãos e dedos.

Estar “educado” aos cinco anos não quer dizer, no entanto, que não se possa tirar prazer da arte antes disso. Nas salas de aula Montessori, e na sua casa pode ser assim também, sempre há uma música tocando. Quase invariavelmente se trata de música clássica, pelo tipo de melodia que não atrapalha a concentração e auxilia a percepção musical da criança. As paredes são decoradas com quadros renomados, para que desde a primeira infância possa-se ter contato com as obras de arte fundamentais da civilização.

A mobília dos ambientes deve ser muito limpa e muito bem organizada, para que haja menos confusão de estímulos e aquilo que for relevante para os sentidos possa ser absorvido. As cores do ambiente devem ser suaves, embora os quadros possam trazer cores mais fortes. Alguns argumentam que a música poderia atrapalhar a concentração. Estudiosos do tema, no entanto, dizem que pequenos ruídos não só não atrapalham a concentração, como podem auxiliar seu desenvolvimento.

O quarto de seu filho pode ter belos quadros na parede, e você pode perguntar a ele o que ele vê na gravura, e ao mesmo tempo contar o que se passa na ilustração. Dê os nomes dos quadros e dos pintores, crianças pequenas adoram categorizar coisas mentalmente, e pode ser um atrativo a mais apreender os quadros por pintores ou por seus nomes.

Se seu filho já aprendeu as cores, você pode perguntar que cores existem no quadro, e permitir que ele aponte onde está cada cor, mas nunca force sua atenção, faça tudo de forma que seu filho seja livre para demonstrar que não quer mais a qualquer momento. A arte deve ser algo agradavelmente absorvido e aprendido, e não uma sequência de lições forçadas que o façam saber todas as datas e os nomes, mas o façam desistir de visitar museus para sempre, sob a alegação de monotonia.

A produção artística é objeto de intenso debate entre estudiosos montessorianos. Alguns argumentam que o desenho deve ser guiado por exercícios para as mãos, outros dizem que enquanto há exercícios, deve haver também oportunidade para o desenho livre. Maria Montessori sempre foi adepta da espontaneidade infantil, de forma que considerava o desenho livre algo fundamental à sala de crianças pequenas.

Ela percebeu, no entanto, que havia uma melhor desenvolvimento da habilidade manual da criança, e até uma preferência por parte dos pequenos, se inicialmente se permitisse o desenho livre por algum tempo, até serem inseridos os primeiros exercícios de desenho, baseados no contorno de formas geométricas em metal. Em seguida, se ensinaria a traçar linhas retas e a respeitar as bordas, para depois se ensinar a utilização de um mesmo lápis colorido para a produção de diferentes tons de cor e finalmente, depois de a mão se ver educada, se retornaria ao desenho, desta vez baseado em observação, um desenho que partisse da realidade.

Montessori enfatizou também a importância da música e disse que não só deveria haver a possibilidade de todas as crianças aprenderem um instrumento depois de serem educadas para a percepção e leitura musicais, mas que também todos os professores da primeira infância deveriam saber tocar pelo menos um instrumento, para que as crianças pudessem reconhecer as notas para além do som produzido pelo material musical básico, que é composto por sinos de metal que produzem uma escala completa.

Como sempre, se a criança demonstrar vontade de se desenvolver mais nas áreas ligadas à arte, esta liberdade lhe deve ser dada, e se deve perceber por observação o que é que ela busca, e auxiliá-la por meio de materiais e instrução. Caso seu filho demonstre que gosta de pinturas, procure mostrar a ele livros de mestres da pintura com diversas gravuras, e ensine um ou outro nome mais importante. Dê-lhe pequenas biografias de pintores para ler, para que se inspire, e se o interesse chegar a este ponto, procure um professor de desenho para crianças, que seja ao mesmo tempo libertário e rígido, para que seu filho possa seguir seus interesses e tendências pessoais, mas para que sua mente se sinte desafiada, e não somente propensa a criar rabiscos durante algumas horas todas as semanas.

O mesmo se dá quanto a instrumentos musicais. Se seu filho demonstra gosto por música, e você percebe bem estar, contentamento ou interesse durante uma boa peça, pergunte a ele se gostaria de aprender a tocar, e ensine-o, ou encontre alguém que possa ensiná-lo. Novamente, pense em um professor que enxergue sua criança como um ser humano, e que o respeite, de forma a permitir a ele a liberdade necessária e exigir dele o esforço que torna tudo mais interessante.

Lembre-se, porém, que seu filho somente passará a cultivar o gosto pela alta arte a partir do momento em que tiver alguém em quem se espelhar. Ele passará muito tempo diante de um quadro se vir que há o que descobrir nele, e só verá isso se seus pais examinarem as obras com atenção e interesse verdadeiros. O mesmo se dará com a música. Pais que escutem música e conversem sobre tendem a cultivar o gosto e a educação musical nos filhos. Idas a museus não devem parecer nunca uma tarefa a cumprir, mas algo tão divertido quanto ir a um cinema ou um parque. Sendo a Literatura uma forma de arte, aproveito para ressaltar que o amor pela leitura tem a mesma fonte: não adianta ler para seu filho. Ele tem de ver que você lê para você também, por prazer e interesse, para que haja sentido ele o fazer sozinho, e não só em dupla com os pais e professores.

Guarde sempre nossos princípios maiores: expor a criança ao estímulo necessário, falar somente o estritamente relevante, e observar sua reação ao objeto, à imagem ou ao som. A partir da reação do seu filho é que você dará o próximo passo, e não por meio de um plano pré-estabelecido de educação artística. A percepção da arte deve partir de dentro dele, e não ser imposta de fora, pois se brotar da própria criança, durará por toda a vida, e será uma inesgotável fonte de interesse, aprendizado e bem-estar. O que mais podemos desejar para um pequeno artista?

domingo, 18 de março de 2012

Passeios à Natureza - Amando e Conhecendo o Universo

Você leva suas crianças a parques? Se sim, parabéns! Se não, tire um tempinho para fazer isso com alguma frequência. O contato com a natureza é fundamental para o desenvolvimento do seu filho. Parques, praças e bosques, assim como praias, oferecem ambientes com muitos estímulos sensoriais para os pequenos, mas de forma suave, sem poluição visual ou sonora.


O contato com a natureza oferece uma quantidade muito grande de possibilidades e assim desperta a curiosidade a um ponto que a casa dificilmente conseguiria. Um dia no parque pode plantar sementes de curiosidade e questões para uma semana inteira, dependendo da idade da criança (isso é especialmente verdadeiro para a faixa etária de três a seis anos). Esteja preparado para responder a estas questões e voltar à natureza em seguida.


Quando a criança é muito pequena, é bom ir ao parque de manhã, quando o sol é fraco e ela está bem desperta, assim pode-se sentar na grama, e ela pode brincar um pouquinho com o entorno, mesmo que não possa se aventurar muito longe. Ficar perto de uma árvore é uma boa ideia, já que só um pequeno espaço incluindo a árvore oferece sombra, raizes, tronco (e sua casca), folhas, terra, grama e quem sabe frutos ou flores. Insetos estarão por perto também, não tema todos eles. Pequenos besouros, joaninhas, grilos ou gafanhotos, borboletas e bicos-pau não são arriscados e maravilham qualquer pequeno explorador.


É claro que é bom evitar abelhas (se as cores que vocês vestirem forem suaves e não houver açúcar nas comidas e bebidas, elas não vão aparecer) e se você não conhecer quais aranhas picam e quais não, espante todas. Mas pare por aí, outros bichinhos são mais uma fonte de conhecimento do mundo do que uma ameaça.


Montessori dizia que não é suficiente amar a criança. É necessário antes conhecer e amar o universo. Ame o universo. Procure se maravilhar com a natureza, assim como seu filho, adote de novo o olhar do explorador, que acha incrível uma folha avermelhada e se surpreende com um pássaro colorido. Mostre essas coisas a ele, não como um professor, mas como alguém que também acha tudo aquilo belo e surpreendente.


Permita que a criança passeie, que pare onde mais lhe interessar, que pegue coisas, que se suje um pouco (ou muito, a depender da sua tolerância), que fique muito tempo parada olhando algo que você sequer percebeu que existia ou que simplesmente não olhe para algo que fascinou muito a você. A maneira de pensar e de ver deles são muito diferentes da sua.



Mostre ao seu filho, nas próximas idas ao parque, como a natureza funciona. De forma descontraida e informal, mostre os ninhos dos passarinhos e explique que são as casas deles, mostre girinos e explique que são os filhotes do sapo, mostre as abelhas e as borboletas nas flores e explique que estão se alimentando e fazendo mel. Com o tempo, explicar a polinização pode ser muito interessante. Sim, você vai ter que estudar muita coisa de novo, mas não vale a pena? Para maravilhar sua criança com a natureza?


Algumas crianças, especialmente as mais velhas, podem recusar-se a ir ao parque ou ao bosque, dizendo que preferem ir ao shopping, ao parque-de-diversões ou à casa de um amiguinho. Embora nenhum desses passeios seja reprovável em si (não recomendamos o shopping para crianças, é excesso de estímulo), é importante que os pequenos saibam admirar o silêncio, perceber um canto de passarinho e o zumbido de uma mosca ou uma abelha. Só por meio do contato com a natureza é possível amá-la, e só por meio do amor a ela é possível respeitá-la - assim, se você quiser que seu filho saiba preservar o ambiente em que vive, mais um motivo para dar a ele oportunidades de curtir esse mesmo ambiente.


As maravilhas e as surpresas da praia são outras, e tão belas quanto as do parque. Quando der, leve seu filho, mesmo muito pequeno, ao mar. Brinquem nas primeiras ondas, molhem-se, façam castelinhos de areia e peguem caranguejinhos e conchas. Tudo isso ensina. Com tudo isso se aprende.


A textura da areia e as cores dela, o fato de nem sempre o castelo ficar de pé, a dificuldade de pegar um animalzinho que se mexe e o material de que é feito uma concha (assim como o brilho da parte de dentro dela) são aprendizados para a criança pequena. Pode ser que surja uma coleção de conchas, neste caso, tente descobrir os nomes delas e ensine-os ao seu filho. Crianças adoram categorizar coisas e estão em uma excelente idade para adquirir vocabulário, inclusive o científico, que não tem nada de difícil, e assim parece para nós por puro preconceito. Levar a criança um pouquinho mais velha (trës ou quatro anos pelo menos) até aquários pode ser fantástico também. 




O terceiro fascínio natural a que podemos e devemos expor a criança é o céu. Se houver a possibilidade de uma viagem curta até um local com pouca luminosidade (casas de familiares no interior, ou uma praia menos popular, por exemplo), mostre as estrelas, a Via-Láctea, identifique constelações e dê os nomes e as histórias delas aos pequenos. Amem e conheçam o universo.


Viver no Brasil tem muitas vantagens neste ponto. Nosso país é privilegiado naturalmente e oferece-nos uma abundância inimaginável de biodiversidade. Além disso, nós temos um escritor infantil que mostrou de forma belíssima as belezas e a perfeição da natureza em seus livros. Monteiro Lobato, especialmente em "A Chave do Tamanho", "Reforma da Natureza" e "Viagem ao Céu" mostrou como o mundo natural e o universo podem ser formidáveis. É uma boa ideia ler os livros com seus filhos de quatro a dez anos.


Quando forem ao parque, tirem fotos! Vai valer a pena mais tarde. E se você quiser, mande para a gente, e publicamos aqui. Envie para gabrielmsalomao@gmail.com contanto como foi o passeio e o que vocês viram de interessante.


Bom passeio!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Higiene e Independência


Este artigo tem menos figuras do que deveria. Ajude o Lar Montessori enviando
fotografias da sua casa adaptada para mim, em gabrielmsalomao@gmail.com 

Quando pensamos na adaptação da casa, muitas vezes lembramos mais do quarto e da sala, lembramos até da cozinha, mas esquecemos de adaptar o banheiro. Este, no entanto, é o local da higiene, e é muito importante para a saúde da criança que ela tenha independência e autonomia neste sentido.

Nas escolas Montessori, deve haver um banheiro completamente adaptado às necessidades da criança, com vasos sanitários mais baixos, pias naturalmente acessíveis e muitas vezes chuveiros ou banheiras para um possível banho. Em casa, isso normalmente não é possível, e sequer é necessário, já que nas escolas a casa é das crianças, mas no lar, tudo pertence à família toda.

As atividades de desenvolvidas no banheiro são, principalmente:
  • Lavar as mãos e o rosto;
  • Escovar os dentes;
  • Tomar banho;
  • Secar-se.
Neste artigo, vamos abordar as adaptações possíveis para o melhor desempenho de cada uma destas atividades pela criança.

Mesmo em um banheiro pequeno, há espaço para um banquinho, e um banquinho resolve boa parte das dificuldades da criança. O ideal é que não seja muito alto, que tenha uma superfície bem razoável (cerca de 50cm de cada lado), mas especialmente, é necessário que seja muito firme. Se a superfície for menor, porque o banheiro não comporta 50cm, não tem problema, é só ensinar a criança a ser cuidadosa e garantir que a base seja firme.

A altura do banquinho deve ser aquela que permita à criança alcançar o que deve. Geralmente, alcançar a pia. Deve ser possível a ela alcançar a torneira e o sabonete, para lavar as mãos e o rosto e a toalha, para secar-se.

Para que aprenda a escovar os dentes, pode-se primeiro ensiná-la os movimentos com o dedo, para que sinta as texturas de sua boca e conheça-se melhor, para depois inserir um objeto que auxilie na limpeza. Mostre como se deve colocar a pasta na escova, isto se provará um exercício de controle motor fino interessante e desafiador. Ensine-a a massagear os dentes e a gengiva de forma macia e a escovar a língua e o céu da boca, devagar e suavemente, sem levar a escova até a garganta. Demonstre também como se faz para bochechar sem engasgar-se, e para pegar a água nas mãos sem derramar.

Escovar os dentes é um exercício muito interessante para a criança, porque contém em si o controle dos erros. Se a criança  apertar demais a escova, perceberá logo seu erro e isso a auxiliará a controlar melhor a pressão. Se colocar pasta de dentes demais, ou de menos, ou excesso ou a falta de espuma se farão notar. Se não conseguir pegar a água será fácil de perceber também, e tudo isso auxiliará o controle motor da criança e dará a ela a oportunidade de superar-se e de se desenvolver.

Tomar banho também é uma atividade cheia de desafios. Primeiro, um alerta importante, mas talvez óbvio: nunca deixe uma criança sozinha em uma banheira e, caso ela tome banho em um box, permaneça por perto e atento aos sons, para o caso de um tombo, não desejável, mas possível.

Por algum tempo, acompanhe o banho de perto, ajudando e ensinando o que lavar e como fazê-lo - não se esqueça, no entanto, de corrigir somente o que for estritamente necessário e de permitir à criança desenvolver-se o máximo possível à sua maneira. Para ela, muitas vezes, pode ser mais importante sentir a água e interagir com ela do que esfregar o sabonete por cada canto do corpo. Só a corrija quando for estritamente necessário.

O sabonete e o shampoo podem ficar no chão ou sobre um banquinho plástico, onde é fácil para a criança alcançar. Aqui, novamente, segurar o sabonete é um exercício de controle motor fino, assim como abrir a tampa dos frascos de shampoo. Há muito a aprender, além da higiene, que será aprendida ao mesmo tempo.

Depois do banho, outro exercício chega: o de secar-se. Uma toalha muito macia deve ser usada, e pode ser deixada à altura da criança, por meio de ganchos baixos, ou não tão baixos, nas paredes. Desde que ela consiga puxar a toalha, está bem. Ensine-a a secar-se e novamente, seja detalhista: "Seque-se de leve e não deixe nem uma gotinha". E não se esqueça, ser detalhista não é pegar no pé, é dar instruções precisas para que a criança não se confunda e saiba executar a tarefa. O controle do erro aqui são as gotas d'água no corpo e, acredite, a criança repara nelas.

Aqui terminam as instruções sobre a higiene básica. No próximo artigo, abordaremos as seguintes ações: urinar, evacuar, limpar-se e ler gibis.

Se você tiver um filho pequeno e quiser tirar dúvidas, dar sugestões ou colocar outros pontos de vista, faça comentários aqui no blog, para todo mundo aprender junto!