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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Compreendendo Montessori: Princípios da Infância

   O Lar Montessori tem muitos artigos sobre a adaptação da casa para a criança. Com a contribuição deste blog e de alguns outros grupos e famílias, a adaptação doméstica se torna cada vez mais uma tendência, e me enche de alegria enxergar a contribuição que damos a este movimento.

   Muitas vezes, porém, com a melhor das intenções, pais, tios, professores adaptam seus ambientes à criança acreditando que acabou aí e que o ambiente por si fará tudo o que Montessori descreve em sua extensa obra. Embora seja bem verdade que a interação livre entre criança e ambiente já seja capaz de muitos milagres, é claro que há mais que isso. É claro que há muito mais que isso.

   Uso o termo milagres um pouco com um tom leve de graça. Evidentemente, não se tratam de milagres, e é justamente sobre isso que escrevemos nesta série de artigos. Espero que sejam artigos breves, bastante objetivos e sucintos e, portanto, dando brecha a muitas dúvidas (sempre bem vindas). Trataremos de três pontos principais nesta sequência de publicações: 1. Princípios de compreensão da criança em Montessori; 2. Princípios de compreensão dos materiais e do ambiente montessorianos e 3. A preparação espiritual do adulto. Esses temas já foram tratados em maior e menor profundidade aqui. Mas acho que vale uma revisão!


   1. Princípios de compreensão da criança em Montessori:
   Montessori, por meio de longas observações do comportamento da criança durante os primeiros seis anos de vida, chegou a uma conclusão que sintetizou da seguinte maneira em seu Mente Absorvente: "Se a ajuda e a salvação podem vir, vir-nos-ão apenas da criança, pois que a criança é o construtor da homem". Montessori explicava que durante os primeiros anos de vida - inconscientemente de zero a três e conscientemente dos três aos seis - a criança absorve os estímulos de seu ambiente (conceito chamado de mente absorvente) e desta forma constrói o homem. A ideia da construção do homem foi e é compreendida de forma muito metafórica até hoje, como se fosse uma maneira poética de tratar o desenvolvimento da criança. Não é.

   Montessori, em última análise, era bastante literal e objetiva em tudo o que dizia. Com a expressão "construtora do homem" e com a "mente absorvente", Montessori adiantava, sem saber, ideias que seriam novamente exploradas, então pela Neurociência, mais de meio século depois. Norman Doidge, em seu polêmico e elucidador livro O Cérebro que Se Transforma, explica: "O que é extraordinário durante o período crítico do córtex [aparentemente os seis primeiros anos] é que ele é tão plástico que sua estrutura pode ser alterada pela exposição a novos estímulos" e "a diferença entre a plasticidade do período crítico e a plasticidade adulta é que no período crítico os mapas cerebrais podem ser alterados pela simples exposição ao mundo externo porque 'a maquinaria de aprendizado está continuamente ligada'".

   Outro conceito fundamental para a compreensão da infância em Montessori é a ideia de um guia interno. Ela desenvolveu a teoria de que existe, na criança, uma orientação inata para o aprendizado daquilo que é essencial para sua sobrevivência e melhor adaptação. Por isso, segundo ela, a criança consegue aprender a linguagem humana, mas não aprende linguagens animais. E embora Montessori só trate da linguagem oral e escrita, o mesmo se pode dizer tranquilamente das línguas de sinais. A crianças as aprende com a mesma facilidade que aprende as línguas orais e a mesma área do cérebro é utilizada para as duas coisas, na posição de língua materna/natural, embora não me venha agora o local em que li sobre isso.

   Doidge também explica isso (deixem-me dizer: está sendo meu segundo contato com as neurociências, então estou aprendendo mesmo. Não posso dizer muito sem citar). O autor nos diz:
"Durante o período crítico, o BDNF ativa o núcleo basal, a parte de nosso cérebro que nos permite concentrar a atenção - e que o mantém ativo por todo o período crítico. Uma vez ativado, o núcleo basal nos ajuda não só a prestar atenção, mas a lembrar de nossa experiência. Ele permite que a diferenciação e a mudança ocorram sem muito esforço. Segundo Merzenich: 'É como um professor no cérebro dizendo: 'Ora, isto é muito importante - é isto que você precisa saber para a prova da vida." Merzenich chama o núcleo basal e o sistema da atenção de "sistema modulatório da plasticidade" - o sistema neuroquímico que, quando ativado, coloca o cérebro num estado extremamente plástico".

   Montessori tratou também dos períodos sensíveis do desenvolvimento. Intervalos temporais durante os quais a criança se encontraria propensa ao desenvolvimento de uma determinada habilidade. Como disse o professor Daniel Willingham, da Universidade de Virgínia, "Montessori está muito além do que as ciências congnitivas sabem. Devagar estamos chegando lá". Nem todos os períodos sensíveis de Montessori já foram comprovados pelas ciências do cérebro. Mas aquele que é mais enfatizado pela autora foi, e aparece no mesmo livro que usamos de apoio até agora: "Esta sensibilidade permite que os bebês e as crianças pequenas captem sem esforço novos sons e palavras durante o período crítico do desenvolvimento da linguagem, simplesmente ouvindo os pais falarem".

   O que a neurociência chama de plasticidade extrema, Montessori chama de mente absorvente; o que hoje se entende como formação de conexões neurais, nossa médica chamava de construção do homem; aquilo que compreendemos como núcleo basal, ou BDNF, a educadora dizia ser o guia interno da criança e finalmente, aquilo que as ciências cognitivas chamam de período crítico, Montessori nomeava por período sensível. Desta forma, vemos quanto o professor Willingham fala sério quando cita Montessori e quanto esta era objetiva e verdadeira quando explicava que "A base da reforma educativa e social, necessária aos nossos dias, deve ser construída sobre o estudo científico do homem desconhecido", em A Formação do Homem.

   Eu sei que este texto foi denso e que ele foge ao nosso padrão aqui. Eu prometo evitar isso, mas é o que acontece quando tentamos comunicar aquilo que estamos descobrindo. Espero reflexões e, se por acaso algum dos nossos leitores for estudioso da área e quiser elucidar algo nos comentários, tudo é sempre bem vindo! Se você não é estudioso(a) de ciências cognitivas, mas é mãe ou pai e quer deixar suas impressões, é claro que todos nos alegraremos com isso também!

   O próximo artigo tratará de princípios de compreensão dos materiais e do ambiente montessorianos e deve demorar mais um pouquinho para sair. Provavelmente no meio tempo alguns mais tranquilos serão publicados!

   Até breve e um abraço!
   Gabriel

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Dia das Crianças, não dos produtos

"Gosto muito do pôr do sol.
Venha, vamos ver um pôr do sol".
(Antoine de Saint Exupéry, em O Pequeno Príncipe)

   Hoje, quando estava almoçando, liguei a televisão no jornal da tarde. O âncora dizia, enquanto víamos imagens de lojas e ruas: "E a 25 de Março está vazia! Para quem quer comprar o presente de dia das crianças, ainda dá tempo!". 25 de Março é o principal centro de comércio a varejo em São Paulo, e é famosa por seus descontos fantásticos em produtos de qualidade baixa ou média.

   Na hora, veio-me à mente uma fala que havia lido no Facebook, dias antes: Neste 12 de outubro, faça com que o dia seja das crianças, e não dos produtos. Lembrei-me também do livro que já mencionei aqui em um artigo anterior: "The World Needs Your Kid" e do blog sobre miniamlismo da Jéssica, o Minimal Student.

   Crianças não ligam para brinquedos. Os pais que já conhecem e praticam Montessori há algum tempo sabem disso. Elas ligam para o prazer advindo do aprendizado que a experiência com o brinquedo proporciona. Então, não é o brinquedo que importa, são três outras coisas:
  1. o prazer
  2. o aprendizado
  3. a experiência
   Como o prazer certamente advirá do aprendizado e o aprendizado só pode surgir a partir da experiência, vamos pensar em experiências. Sabemos que a criança pequena gosta de usar os sentidos e adora ter trabalho. No dia das crianças, podemos proporcionar isso a ela de várias maneiras.

   Uma ideia é organizar um passeio em família para um parque, praça, ou oficina infantil. Em um parque, a criança pode explorar todo o entorno natural que lhe faz tão bem. Pode aprender as texturas das folhas, troncos, da grama e da terra. Ela pode sentir o cheiro das flores, pode ver (e pegar!) insetos, lagartas, minhocas... Cuidado com aranhas, taturanas e animais com ferrão, mas de resto, toda experiência sensorial é científica!

   Passear pelo parque pode proporcionar para ela a oportunidade de conhecer plantas diferentes, e lembre-se de que crianças adoram categorizar. Separar as coisas em flores, arbustos, árvores e ervas-daninha pode ser um jeito de ajudar seu filho a organizar o mundo. Além disso, claro, vale comer uns sanduíches feitos em casa com suco, água, leite ou chá e brincar de roda-roda, pular corda, esconde-esconde, pega-pega, rolar na grama e todas as outras brincadeiras que você e seu filho conhecem bem!

   A praça é um passeio menor, mas muitas vezes é tão bom quanto o parque. Aqui em São Paulo sei que há várias praças com parques de diversão e outras de beleza natural que vale a pena. Conheço uma chamada Praça do Por do Sol, que fica em um local bem alto da cidade e que permite ver o por do sol de um ponto de vista fantástico. Além disso, tem muita grama, árvores, espaços amplos para brincadeiras e conversas. Ir a uma praça pode ser mais fácil para uma família em que todo mundo trabalhe ou para uma criança que não goste de ficar muito tempo no carro, até chegar em um parque que fique longe.

   As oficinas infantis acontecem em várias cidades do Brasil durante o dia 12 de outubro e o fim de semana que o segue. Nem todas são legais. Algumas funcionam com base em competições, outras têm como tema personagens de desenho animado. Mas há um punhado que oferece oportunidades incríveis para as crianças: utilizar materiais recicláveis, superar obstáculos físicos como montanhas de almofadas ou ladeiras de borracha, conviver com crianças de outras classes sociais. Passar um dia em uma oficina assim pode ser muito, muito mais divertido do que ganhar um carrinho, uma bola ou um quebra-cabeça.

   Em alguns casos, porém, pode estar chovendo, pode estar trânsito, e um passeio pode ser bem complicado. Aí vale a pena dar o presente? Não. Não, por dois motivos: primeiro, as coisas são mais caras no dia das crianças, não compensa. E em segundo lugar, seu filho não pode associar seu afeto com objetos, com presentes. Seu afeto tem de estar nas suas palavras, nos abraços, no carinho que você pode e deve oferecer todos os dias.

   Se não houver nenhum passeio para fazer, não tem problema. Faça uma atividade sensorial, faça um pão e peça ajuda para fazer a massa, faça uma salada de frutas e precise de ajuda para cortar as frutas, uma faxina de mentira com ajuda para varrer um pedaço da sala ou do quintal. Se estiver frio, faça tudo de dentro de casa, e se estiver quente, plante uma flor no quintal, use a varanda para montar um brinquedo com tecido ou papel (e o principal não é o brinquedo, mas montar o brinquedo).

   Se você faz parte de uma família que aprecia uma boa educação social, também há vários locais que propiciam o contato entre diversas classes sociais, organizações que dão espaço para algumas crianças darem brinquedos para outras, e você pode ensinar sua criança a dar, sem esperar nada em troca.

   Finalmente, o que importa é fazer deste dia um Dia das Crianças, no qual seus pequenos sejam prioridades completas, em primeiro, segundo e terceiro plano. Dia 12 de outubro não é dia de dar presentes para seu filho, mas é dia de despertar o prazer advindo do aprendizado que surge a partir da experiência.

   Um abraço e feliz Dia das Crianças!

   

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Manual do Proprietário de uma Criança Montessori


Texto de Donna Bryant Goertz, disponível em http://mariamontessori.com/mm/?p=1674
Tradução de Gabriel Merched Salomão distribuída com autorização da autora


   Queridos pais,

   Eu quero ser como vocês. Eu quero ser exatamente como vocês, mas quero me tornar como vocês do meu jeito, no meu tempo, pelos meus esforços. Quero assistir a vocês e imitar vocês. Eu não quero ouvir vocês, a não ser por umas poucas palavras de cada vez - a menos que vocês não saibam que eu estou ouvindo. Eu quero trabalho, quero realmente me esforçar com algo muito difícil, algo que eu não consiga fazer imediatamente. Eu quero que vocês deixem o caminho livre para os meus esforços, e quero que me dêem os materiais e ferramentas necessárias para que o sucesso seja possível depois das dificuldades iniciais. Eu quero que vocês me observem e vejam se eu preciso de uma ferramenta melhor, um instrumento mais do meu tamanho, uma escada mais alta e mais segura, uma mesinha mais baixa, uma caixa que eu mesmo possa abrir, uma estante mais baixa, ou uma demonstração mais clara de algum processo. Eu não quero que vocês façam para mim, ou me apressem, sintam pena ou me parabenizem. Só fiquem calmos e me mostrem como fazer as coisas devagar, muito devagar.

   Eu vou querer fazer um trabalho todinho de uma vez e sozinho porque eu vejo vocês fazendo, mas isso não funciona para mim. Sejam firmes e coloquem limites para mim nessa hora. Eu preciso que vocês me dêem pequenas partes do trabalho inteiro e me deixem repetir de novo e de novo, até que eu faça tudo perfeitamente. Vocês dividem o trabalho em partes que serão muito difíceis, mas possíveis de fazer com bastante esforço, com muitas repetições e com muita concentração.

   Eu quero pensar como vocês, comportar-me como vocês, e ter os mesmos valores que vocês. Eu quero conseguir tudo isso pelo meu trabalho, imitando vocês. Falem devagar. Usem poucas e sábias palavras; Movimentem-se devagar; Façam as coisas em câmera lenta para que eu possa absorvê-las e imitá-las.
Se vocês confiarem em mim e me respeitarem, preparando meu ambiente doméstico e me dando liberdade dentro dele, eu vou me disciplinar e cooperar com vocês mais pronta e frequentemente. Quanto mais vocês se disciplinarem, mais eu vou me disciplinar. Quanto mais vocês obedecerem as leis do meu desenvolvimento, mais eu obedecerei vocês.

   Nós temos tanta sorte, eu e vocês, que dentro de mim haja um plano secreto para o meu jeito de ser como vocês. Eu sou guiado pelo meu plano secreto. Eu sou feliz e estou seguro o seguindo. É irresistível para mim. Se vocês interferirem com o trabalho de me revelar de acordo com meu plano secreto e tentarem me forçar a ser como vocês do jeito de vocês, no tempo de vocês e pelo esforço de vocês, eu vou esquecer de trabalhar no meu plano secreto e vou começar a lutar contra vocês. Eu decidirei levantar guerra contra vocês e contra tudo o que vocês defendem. É minha natureza. É meu jeito de me proteger. Podem chamar isso de integridade.

   Dependendo da minha personalidade, eu promoverei uma guerra mais aberta ou mais encobertamente. Eu brigarei mais ativa ou passivamente. Uma quantidade imensa de minha energia, do meu talento e inteligência será desperdiçada. Vocês vão ganhar no final, provavelmente, mas eu serei só uma versão mais fraca, uma substituição pobre, um molde tosco daquilo que eu sou capaz de ser, e vocês vão ficar exaustos. Por favor, aliviem a tensão para todos nós preparando o ambiente em casa para que eu possa executar meu trabalho de criar um ser humano e vocês possam se manter no trabalho de educar um. Eu farei o que faço melhor e vocês farão o que fazem melhor.

   Eu sou capaz de ser o melhor exemplo de suas melhores qualidades e valores expressos do meu jeitinho. Se vocês prepararem a casa cuidadosa e completamente para mim, mantiverem meus materiais em ordem e em bom estado, colocarem limites claros e firmes, derem-me períodos longos e lentos para trabalhar no meu plano secreto, eu farei o trabalho de desenvolver um novo ser humano - eu! Eu mencionei que preciso dos materiais em todos os ambientes da casa? Eu preciso de materias disponíveis para acesso rápido e fácil, sempre que eu estiver em casa e onde quer que vocês estejam. Eu preciso ter a opção de trabalhar e brincar perto de vocês. Na maior parte do tempo, eu preciso fazer as atividades perto da estante ao qual elas pertencem para que eu crie o hábito de guardá-las depois de usar.

   Meu plano secreto para me desenvolvier é executado totalmente pela mão - mãos, digo, as minhas duas, para ser exato. Eu sou um bom artista, um excelente artesão e preciso das melhores ferramentas e materiais. Não me dê coisas inúteis e em excesso, só uns bons materiais que sejam completos e estejam em bom estado. O excesso é pior que desnecessário; é perturbador. Atrapalha meu processo criativo. Me deixa irritado e eu coopero menos com vocês. Eu sei que é difícil de acreditar que por meio das atividades que eu escolho e executo independentemente e em estado de profunda concentração eu esteja desenvolvendo meu caráter, mas é verdade. Eu não posso fazer um bom caráter com um excesso de coisas inúteis e no meio da bagunça.

   Minha casa é meu estúdio e meu ateliê, então por favor, certifiquem-se de que ele seja calmo e pacífico. Coloquem músicas leves e tranquilas para tocar enquanto eu estiver acordado. Assistam televisão só depois que eu estiver dormindo. Enquanto estou acordado, faço todo o barulho de que preciso. Ah, e eu preciso que tudo fique em ordem. Eu não posso dar o melhor de mim na bagunça. Eu não sei como ordenar as coisas sozinho, mas eu preciso da ordem, então eu preciso que vocês arrumem tudo para mim pelo menos três vezes por dia. Se vocês ordenarem as coisas para mim de um jeito prático e que seja esteticamente prazeroso e faça sentido para o meu raciocínio lógico, eu vou, devagarinho, imitar vocês mais e mais.

   Em algum momento, vocês poderão me mandar colocar as coisas no lugar sozinho, quando eu tiver uns seis anos, desde que vocês se lembrem de checar tudo comigo até os nove anos. Eu não consigo lidar com o acúmulo de um dia inteiro de coisas para guardar, e muito menos o de uma semana inteira. Eu certamente nunca serei capaz de lidar com um mês de bagunça. Se vocês se distrairem e esquecerem de me ajudar a guardar tudo durante o dia e a bagunça se acumular, vocês vão ter que guardar tudo à noite.

   Eu odeio ser tão exigente, mas eu preciso ter todos os meus objetos organizados e dispostos em conjuntos completos que eu possa alcançar, de forma que eu possa pegá-los sozinho. Se eu tiver de pedir para vocês toda vez que precisar de alguma coisa, eu vou começar a me sentir um capitão, um general ou um inválido chorão. Parem e pensem, eu realmente poderia assumir um ou outro desses papéis. Nenhum de nós deseja isso. Eu preciso de independência como eu preciso de oxigênio. Ela me faz apresentar o melhor de mim. O tempo que vocês gastam organizando meu ambiente será o tempo que vocês economizarão não tendo que lidar com meu lado petulante, rebelde e teimoso.

   A televisão é uma grande interrupção no meu desenvolvimento. Desculpe! Eu sei que vocês não querem ouvir isso: eu preciso de muitas atividades manuais e preciso de muito tempo de processamento. A TV me distrai das atividades mais importantes e enche minha cabeça com mais do que eu tenho tempo para processar. Leiam para mim todos os dias, porque a leitura vai devagar, e me dá tempo para processar junto. A TV me amontoa com mais do que eu sei usar, então ou eu desligo ou fico frenético. Eu sei que vocês podem achar que alguns programas são bons para mim, e vocês podem achar que merecem a folga que a TV dá para vocês, mas nós todos pagamos um preço alto para cada meia hora que eu assistir.

   Eu não resisto à TV, mas tudo bem, porque qualquer criança de três a seis anos tem pais, e é para isso que os pais servem. A TV me deixa distraido, irritado, e me faz não cooperar com vocês. Quanto mais eu assistir, mais eu quero assistir, e aí surgem problemas entre nós. Se vocês não conseguem dizer não para o hábito de ver TV agora, onde está meu exemplo para dizer não para outros maus hábitos mais tarde? Além disso, quanto mais eu vejo TV, menos eu quero ser como vocês. Lembrem-se, eu imito o que assisto. Ah sim, cuidado também com os jogos de videogame e computador pelos quais eu vou implorar e que todos os meus amigos têm. Sei que vocês conseguem!

   Geralmente, eu vou estar tão concentrado nos meus trabalhos e brincadeiras que não vou ouvir vocês quando falarem comigo. Não piorem as coisas falando de longe ou repetindo o que vocês disseram. Abaixem-se até o nível dos meus olhos, pertinho do meu rosto, consigam minha atenção e olhem nos meus olhos antes de falar. Então, façam das suas palavras poucas, firmes e respeitáveis. Vocês vão economizar muito sofrimento desnecessário se lembrarem de fazer assim. Eu sei que não vai ser fácil lembrar, mas se vocês se esforçarem bastante, podem fazer disso um hábito. Afinal, se vocês não fizerem o que devem, como podem esperar que eu faça o que devo?

   Se você não tiverem tempo, energia ou, odeio dizer isso, auto-disciplina para seguir aquilo que vocês dizem, não digam. Ameaças vãs e promessas vazias me fazem desprezar vocês. Vocês ficam parecendo bobos, arbitrários e fracos. Eu sei que eu ajo como se quisesse conduzir o universo sozinho, mas é só bravata. Eu realmente preciso de pais para conduzirem meu mundo. Quando eu não posso confiar que vocês querem dizer o que dizem, eu não posso acreditar em vocês. Isso me faz sentir inseguro e eu chego a alguns extremos. É assustador porque eu amo vocês demais. Eu preciso respeitar vocês e acreditar que vocês querem dizer o que dizem. Vocês são a parte mais importante do meu ambiente em casa.

   Vocês se alegrarão de saber que parte do meu plano secreto pede que eu ajude com a casa e o jardim. Não, não pode ser quando vocês quiserem, quando vocês tiverem tempo ou estiverem com vontade. Tem que ser quando eu me interessar. Desculpe, não dá para negociar isso. Afinal, sou eu quem está criando um ser humano aqui. Vocês só estão educando um. Bom, eu acho que não serei de nenhuma ajuda, na verdade, não imediatamente ou diretamente. Vai ser uma complicação. Eu preciso do equipamento no tamanho certo, de demonstrações cuidadosas e de muito tempo e paciência.

   Assim que eu tiver dominado uma habilidade, e me tornar capaz de realmente ajudar, vou cansar e escolher não fazer aquilo de novo. Aí eu vou querer aprender algo novo, que exija ainda mais habilidade e desenvoltura e vocês vão ter de começar tudo de novo. Isso vai acontecer mais ou menos uma vez por semana pelos próximos seis anos e vai ocupar bastante do seu tempo tão valioso e escasso. No longo prazo, no entanto, vai ser de grande ajuda, porque eu vou me sentir tão envolvido com a casa e com a família que serei muito mais razoável e cooperativo quanto aos nossos valores e regras. Eu também serei tão capaz, independente e auto-suficiente quando eu tiver uns nove anos que é bastante razoável esperar que eu faça minha parte na casa e no jardim. Eu terei desenvolvido obediência.

   Eu sei que minhas necessidades são grandes e muitas. Eu sei que estou pedindo muito de vocês, mas vocês são tudo que eu tenho de verdade. Eu amo vocês e eu sei que vocês me amam além da razão e dos limites. Se eu não puder contar com vocês, com quem eu contarei? Mas não vamos fantasiar. Não precisa ser perfeito. Eu sou forte e resistente. Eu sobreviverei e farei o melhor. Só achei que vocês poderiam querer ter o capítulo sobre Cuidados Básicos com o Ambiente Doméstico do Manual do Proprietário sobre uma Criança Montessori. Vocês podem fazer os próximos três anos serem muito mais divertidos para nós todos se cuidarem de mim conforme minhas necessidades. Ei, nós podemos combinar que vamos satisfazer 50% das minhas necessidades? Ok, Ok, 25% e não se fala mais nisso.

   Amor, abraços e beijos,
   Seu filho de três a seis anos.

   PS: Eu sei que tenho muita sorte. Não são muitos os filhos cujos pais vão realmente ouvir e atentar para suas necessidades em vez de ceder às teimosias e chororôs. Talvez eles temam que seus filhos deixem de amá-los. Talvez temam que seus filhos não sejam populares. Eu vou guardar isso para o Capítulo Seis.
   Quanto mais eu assistir TV, mais eu vou reclamar por tédio, porque aos poucos eu vou perder minha tendência natural a seguir meus Períodos Sensíveis - sabem, aquela atração a certas atividades durante períodos determinados do desenvolvimento. Sem a interferência da TV, uma incansável sensação de insatisfação criativa me leva a explorar o ambiente, focar minha atenção em uma atividade, concentrar-me nela, e repeti-la. Sob a influência da TV, a mesma sensação incansável se torna um monstro de cara feia chamado “tédio”, que tiraniza a vocês e a mim, desgasta nossa relação e compromete meu melhor desenvolvimento.


    - Donna Bryant Goertz, fundadora da Austin Montessori School, em Austin, Texas, atua como uma fonte para escolas ao redor do mundo. O livro de Donna, “Children Who are Not Yet Peaceful: Preventing Exclusion in the Early Elementary Classroom” baseia-se em seus trinta anos de experiência guiando uma comunidade de trinta e cinco crianças entre seis e nove anos. Ela recebeu seu diploma de Ensino Básico Montessori da Fondazione Centro Internazionale Studi Montessoriani, em Bérgamo, Itália, e seu diploma de assistente para a infância pelo The Montessori Institute of Denver, no Colorado.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Desenvolvendo Habilidades na Cozinha

Traduzido e adaptado do excelente Www.MichaelOlaf.net e do livro "How to Raise an Amazing Child in the Monessori Way", de Tim Seldin.
...mas eu sei que a felicidade não vem das coisas. Vem do
trabalho e do orgulho do que se faz. (Gandhi, in michaelolaf.net)

Arrumar a cozinha e a mesa para o trabalho da criança não precisa ser uma empreitada difícil, e não é necessário fazer tudo de uma vez. No começo, destine à criança uma prateleira ou um armário na cozinha. Este local pode abrigar uma tábua e uma faca segura (sem ponta e não muito afiada), ou cumbucas de cereais e colheres - o que quer que seja usado com mais frequência pela criança.

Um banquinho é um bom primeiro investimento. Assim, a criança pode alcançar a pia ou o balcão para trabalhar. Melhor do que isso, se houver espaço, é dar à criança uma mesa baixa e uma cadeirinha, para que ela possa preparar pequenos lanches para si mesma e até ajudar com a preparação da comida.

A criança deve ter liberdade para se alimentar quando sentir fome e os pais devem ensinar como se faz, sempre dividindo a tarefa em pequenas partes, e utilizando sempre os mesmos instrumentos, no mesmo local e na mesma ordem. É importante ensinar também a limpar tudo e a retornar os objetos ao seu lugar de origem. Segundo E.M. Standing, uma das características de uma criança em equilíbrio é seu amor pela ordem.

Preparar comidas e serví-las é também um exercício de altruísmo, pois é feito para o bem dos outros. Assim o são também a limpeza e a arrumação posteriores.


1. Aprender a despejar

Ensinar a despejar líquidos ficará muito mais fácil se você começar com jarras pequenas e leves, que a criança possa levantar sozinha. Num primeiro momento, também é mais fácil despejar de uma jarra para outra, em vez de usar copos, e é bom começar com algo sólido, como arroz cru ou lentilhas. Para este primeiro exercício, as melhores jarras são as muito pequenas. É uma boa ideia colocar uma bandeja colorida sob as jarras, para que qualquer grão despejado fora da jarra possa ser visto com facilidade e limpo quando sua criança terminar de praticar.

Mostre à sua criança como segurar a jarra usando a mão com a qual ela se sentir mais confortável. Demostre como segurar a outra jarra com a mão livre, pois isto dará a ela controle máximo sobre a atividade. O exercício é passar os grãos de um recipiente para o outro. Enfatize a importância de ser cuidadoso: "Querido(a), tente desepejar o arroz de uma jarra na outra sem deixar cair nenhum grão fora do vidro".

Quando seu filho conseguir dominar esta tarefa, você pode dificultar aos poucos, aumentando devagar o tamanho da jarra, e depois pedindo para ele despejar o arroz em um copo. Você pode tornar esta tarefa melhor colocando somente a quantidade de arroz que o copo puder comportar.

Finalmente, quando você achar que seu filho está pronto, coloque água na jarra, em vez de arroz. Desafie-o a despejar a água sem derramar uma só gota. Lembre-se, no entanto, de que este processo não se dá em um dia! Para a maior parte das crianças, levam-se meses a aprender a controlar a relação olhos-mãos necessária para despejar corretamente e sem ajuda.


2. Aprender a utilizar a colher e o garfo

Ensinar boas maneiras à mesa sempre envolve ensinar a utilizar os talheres, e para isto é necessário haver um excelente controle muscular, pelo menos para levar a comida do prato à boca sem deixar nada cair.

Algumas atividades com colheres, garfos e cumbucas podem ajudar a desenvolver estas habilidades. Comece com uma bandeja, uma colher e duas tigelas. Uma das tigelas deve conter algo relativamente fácil de se carregar com uma colher, como pedrinhas ou feijões grandes. A colher deve ter o tamanho certo para a criança. Mostre a ela como transferir o conteúdo de um recipiente para outro, um feijão ou uma pedrinha por vez, sem deixar nada cair. Desafie seu filho a fazer o mesmo. Quando conseguir, ele pode repetir o processo quantas vezes quiser.

Quando a criança conseguir fazer isso sem derrubar nada, você pode aumentar um pouco a dificuldade, colocando grãos de arroz cru no lugar dos feijões ou das pedrinhas. Repita o mesmo processo.

Você pode usar o mesmo tipo de exercício para ensinar a utilização do garfo, desde que você escolha a substância certa. Boas opções são cubinhos de queijo ou pedaços de banana.


3. Aprender a usar a faca

Lembre-se de que o ambiente deve sempre ser montado para a atividade a ser desenvolvida. No caso da faca, se for haver lixo ou sujeira após o final do processo, tenha uma pequena lata de lixo por perto, um paninho úmido e um seco, para que depois da atividade, a criança possa reorganizar seu ambiente.

Um bom começo para se ensinar a utilização da faca é ver que a criança já consegue controlar bem os outros talheres - a colher e o garfo. Se a criança estiver preparada, e conseguir controlar os outros talheres com destreza, não há riscos que devam impedir a execução destes exercícios.

A faca no começo não precisa ser afiada, mas posteriormente deverá sê-lo. Um primeiro exercício pode ser, por exemplo, cortar uma banana, pois é uma fruta mole, que não escorrega, e poderá servir de lanche para você e seu filho. Esta atividade pode ser desenvolvida dentro de um contexto, como o lanche da tarde.

Vocês vão precisar de uma tábua e uma faca apropriada para a mão da criança. A criança pode descascar a banana, e jogar a casca em uma lixeira. Em seguida, deita-se a banana sobre a tábua e fatia-se a fruta. Você demonstra primeiro, e a criança faz depois. Em um primeiro momento, demonstre com poucas palavras, em seguida, explique o objetivo do exercício e por último dê instruções de segurança (não é necessário assustar a criança, basta explicar como ela deve fazer para não correr riscos).

Outra possibilidade de exercício é passar manteiga, patê, geleia ou requeijão em um pedaço de pão, torrada ou bolacha. Ensine como passar a faca sobre o creme que for usado, demonstre como deitar a faca sobre o pão ou a bolacha e ensine como espalhar. Explique que se deve segurar primeiro o recipiente com uma mão e a faca com a outra e depois segura-se com uma mão a faca e com a outra o lanche. Seja perfeccionista, diga que a manteiga ou o patê devem ficar igualmente espalhados por todo o pão e que não devem cair para fora do lanche.

Ser perfeccionista não é ser implicante, e o perfeccionismo serve para a criança não se perder durante a atividade e para satisfazer seu inato desejo de ordem. Incentive, fique por perto, mas não pressione nem mime demais. O aprendizado de uma habilidade tão difícil é prêmio suficiente para ela.

Esperamos que você passe um tempo agradável com seu filho na cozinha, e se você quiser filmar, tirar ou fotos ou escrever sobre a experiência, mande isso para a gente!


Lição sobre despejar:

Lição sobre o uso da colher:

Criança cortando banana:

Criança cortando banana e despejando:

Criança despejando:

Criança ajudando na cozinha:

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Cesta dos Tesouros

Este texto foi traduzido do livro "How to Raise an Amazing Child the Montessori Way", de Tim Seldin.
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Tudo por perto de seu bebê é um mundo mágico de objetos esperando por descobertas


Assim que seu bebê for capaz de sentar e pegar coisas, ele vai adorar explorar uma "cesta dos tesouros". É uma cesta baixa que você terá enchido com objetos do lar e coisas da natureza. Os objetos precisam ser grandes o suficiente para que a criança não os engula e não devem ter pontas ou partes afiadas que possam machucar a criança quando tocadas ou quando colocadas na boca. Crianças mais velhas gostam da cesta também, permaneça adicionando novos objetos.

Uma cesta dos tesouros deve provocar maravilhamento, surpresa, descobertas. Junte entre 50 e 100 objetos, cada um com suas características de cor, textura, peso e cheiro - use sua imaginação e seu bom senso. A escolha dos objetos é constante, e pode se tornar um passatempo agradável para os pais examinar objetos e pensar se seriam tesouros interessantes para a cesta. Você pode incluir coisas como uma carteira, uma casca de noz [uma concha sem partes afiadas é sempre um objeto interessante], uma pinha, um pincel, uma pena, um sino de metal, uma pedra macia. Bebês e crianças usam todos os seus sentidos, enquanto adultos tendem a depender da visão. Objetos que possuam um padrão visual ou uma textura diferenciada na superfície, um aroma especial, que sejam gelados ao toque (como uma pedra), ou que produzam sons quando movimentados são especialmente interessantes. Para uma criança pequena, tudo é uma descoberta nova e excitante.
Crianças muito pequenas já se
interessam pela Cesta dos Tesouros
A cesta dos tesouros pode entreter seu filho por períodos longos, sendo que meia hora é um tempo razoavelmente comum. Com crianças pequenas, tenha em mente que se trata de um grande estímulo, sendo melhor oferecê-lo para uma mente descansada e alerta. Quando crianças pequenas estão explorando a cesta pela primeira vez, o melhor a fazer é não dizer nada. Somente selecione um objeto, examine-o cuidadosamente, e coloque-o de volta na cesta. Seu filho pode pegar o mesmo objeto assim que você o devolver à cesta ou pode escolher algo completamente diferente. Deixe-o explorar sozinho - as crianças gostam que estejamos por perto, mas nem sempre desejam nossa interferência.


--trecho adaptado--

Colocar os objetos na boca é uma fonte de prazer e aprendizado para sua criança. Desde que os objetos estejam limpos e sejam seguros, não é necessário limitar esta experiência. Procure escolher objetos que atendam a estes requisitos.

O olhar da criança já se desenvolveu nesta idade, e já é possível para ela observar objetos de cores sutis e leves. Quaisquer objetos chamarão a atenção de seus olhos, e coisas simples, de casa, podem despertar grande interesse.

Vidros de sementes ou feijōes, pequenos sinos, correntes... Todos estes objetos (e muitos outros) proporcionam sensações interessantes para o ouvido da criança, e serão também fontes de descobertas.

Crianças maiores mantém o interesse pelos objetos.
Procure selecionar objetos interessantes para o tato. Diferentes texturas e temperaturas são importantes, e é mais interessante escolher objetos de madeira, metal ou vidro (desde que forte, para sua criança não correr riscos) do que de plástico, já que o plástico apresenta sempre a mesma textura. Objetos naturais, como pinhas e sementes grandes podem ser interessantes também.

Objetos com cheiros suaves podem ser bem interessantes também. Sachês, saquinhos de ervas, sementes cheirosas e limões são boas escolhas (quanto ao limão, cuidado para não expor a pele da crinça ao sol depois de ter manejado a fruta).

Depois te ter explorado os objetos da cesta, ainda existe uma cesta para ser descoberta. Procure escolher um recipiente belo, agradável ao tato, para que a criança tenha também esta possibilidade de exploração.

domingo, 3 de julho de 2011

Cozinha - geral

Este post foi baseado no livro "How to Raise an Amazing Child the Montessori Way", de Tim Seldin, publicado pela DK.


A partir dos dois anos de idade, a criança já pode começar a interagir mais ativamente com a cozinha (leia aqui sobre o desenvolvimento desta interação), e começa a adquirir maior liberdade e autonomia, se o ambiente favorecer este desenvolvimento.
[Abaixo, neste post, você encontra um vídeo, em inglês, cujas imagens ajudam muito a entender o que você pode fazer na sua cozinha. Mesmo que você não saiba inglês, vale a pena ver o vídeo. As imagens são extremamente ilustrativas]
A primeira medida que se pode tomar para auxiliar os pequenos nesta fase é instalar uma pequena mesa na cozinha, que seja baixa, mas firme. À frente desta mesa pode-se colocar uma cadeirinha também pequena. O material indicado sempre é a madeira, o motivo principal de se utilizar materiais de madeira sempre que possível é a experiência de tato com materiais naturais. A madeira também é mais bonita que o plástico e oferece maiores possibilidades de mobilidade para a criança do que o metal e o vidro. É ideal que o tampo da mesa seja coberto por uma placa de fórmica, assim a umidade não se acumula e se mantém melhor a higiene. Apesar disso, se o preço de uma mesinha firme de madeira não for acessível, é melhor uma mesa de plástico de alguma cor leve (branco é bom, para que a sujeira seja perceptível e a criança tenha o que limpar quando fizer sujeira) do que a ausência do móvel. Somente certifique-se de que a mesa de plástico seja firme, lembre-se que a criança precisa de um bom apoio para suas primeiras experiências culinárias.

Um armário baixinho, a estante mais baixa de um armário, ou a gaveta mais baixa de um gaveteiro são locais excelentes para se colocar os copos (de vidro), os pratos (de porcelana), os talheres (pequenos, mas de metal) e guardanapos. Os pratos podem ser os de sobremesa, copos podem ser de tamanho normal, se forem comuns, e talheres de sobremesa em geral são adequados. Tudo isto deve ser mantido disponível para a criança, mas a criança deve aprender a manejar cada um destes objetos, sob tutela dos pais. Abaixo, falaremos um pouco sobre como ensinar o manejo dos objetos de cozinha e num post futuro detalharemos este ponto.
Sobre a mesa, pode-se e se deve manter uma jarra (pequena, adequada ao tamanho da criança) com água ou suco e frutas ou pedaços delas, assim como outros itens que possam servir de lanche quando a criança sentir fome e não for horário de refeições. O ideal é atentar para a nutrição dos pequenos e evitar deixar doces ou outros alimentos menos saudáveis. É importante que não haja opções demais, para que a criança não fique confusa, nem de menos, para que ela tenha o que escolher. Duas frutas, ou uma fruta e um tipo de pão ou biscoito são boas opções.

As comidas da criança podem ser deixadas na estante mais baixa da geladeira ou em uma estante do armário acessível para ela, para que ela possa acessá-las quando desejar. Alguns itens possíveis de se disponibilizar para ela são:
- pedaços de frutas ou frutas pequenas (uvas, ameixas...) sempre lavadas;
- fatias de queijo ou de frios, patês, manteiga em recipientes não quebráveis;
os recipientes não devem ser quebráveis porque a criança não terá, neste caso, a firmeza das duas mãos para garantir a estabilidade do pote, pois utilizará uma das mãos para a espátula.
- pães e cereais;
- iogurte, leite, sucos em garrafas e jarras.

No começo, deixe somente colheres disponíveis. Ensine o pequeno a segurar os talheres, geralmente utilizar somente colheres no começo é uma boa e segura maneira de começar. Ensine a criança a segurar copos e pratos com as duas mãos, primeiro executando o ato vagarosa e cuidadosamente, em seguida pedindo que ela o faça. Explique o posicionamento do prato e do copo na mesinha, e mostre como se utiliza um guardanapo. Deixe um pano perto da mesinha para que a criança possa enxugar a superfície, caso despeje líquidos fora do copo.

Disponibilize aquilo que você se sentir seguro(a) para ensinar. Nós vamos liberar posts sobre cada uma das tarefas que devem ser desempenhadas pelo pequeno na cozinha, a maneira de ensinar e a maneira de aprender da criança. Mas é possível começar com o básico desde já.