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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Minha visita à American Montessori Society

Quanto tempo!

Neste mês de julho viajei com um grupo de onze alunos para Nova Iorque. Eles vieram participar de um curso de inglês em New Rochelle, com a Rennert Bilingual, e eu vim tomar conta da garotada. Voltaremos neste sábado, e a estada aqui tem sido muito legal. Eu não conhecia os Estados Unidos e NI realmente tem coisas fantásticas de se ver e para conhecer.

Antes de decolar para cá, é claro que eu parei um pouco no Google para descobrir o que havia de montessoriano por estas terras. Minha primeira busca foi pela localização do quartel general da American Montessori Society (AMS), que eu descobri ficar bem no coração de Manhattan. Portanto, enquanto fazia as malas, já pensava que teria de visitá-la! O problema era que eu não sabia em que dia eu teria um tempinho para fazer isso, porque desde que comecei a trabalhar com viagens (em 2009), só recebíamos o calendário de atividades da escola quando chegávamos, e este ano foi igualzinho.

Só em uma terça-feira à noite é que descobri que poderia visitar a AMS na quarta-feira de manhã. Enviei um e-mail em cima da hora e não esperei resposta. Estava lá às 9h00 do dia seguinte. Ninguém sabia muito bem o que fazer quando eu cheguei - nem as secretárias que me receberam e nem eu que fui recebido. Eu sabia que queria conhecer gente, achar material de leitura, quem sabe um poster ou uma camiseta. Mas não sabia quem eu queria conhecer, exatamente, e nem quais materiais eu desejava. Então despejei:
Oi, eu sou um pesquisador de graduação brasileiro que se interessa por Montessori para adolescentes, e eu gostaria de conhecer alguém, ou conversar com quem possa me ajudar em pesquisa. Também, se vocês tiverem materiais, eu adoraria comprá-los. Eu conversei uma vez com a Angela M-, mas não sei se ela fica aqui.
As moças ficaram mais confusas que eu, e chamaram alguém que pudesse me receber ou me mandar para fora: "Oi, tem um pesquisador do Brasil aqui que quer falar com alguém da AMS". Instantes depois chegou uma mulher muito elegante, de cabelos enrolados e um sorriso que me tranquilizou. Chamou-me para uma sala ao lado e me pediu para contar porque eu estava lá.

Eu havia caminhado um bom tanto, e estava cansado. Some isto à minha alegria de estar na AMS e à minha incerteza sobre o que estava fazendo lá e você terá uma dimensão de como foi confuso meu depoimento. Ela me interrompeu, por generosidade e ofereceu-me "antes de tudo", um copo d'água. Aceitei prontamente, e em seguida aceitei também o segundo copo. Aí contei tudo aquilo que vocês já sabem. Que fui aluno Montessori no Fundamental, que no Médio achava tudo meio bobo, e que agora eu havia decidido fazer algo para mudar um pouquinho as coisas. Por fim, expliquei que pesquiso a aplicação dos princípios Montessori em um Fundamental II montessoriano em São Paulo.

A pessoa que me recebeu chama-se Marcy Krever, e é a diretora de Marketing e Comunicação da AMS. Ela sugeriu que eu entrasse no acervo deles, de produtos, e pegasse o que me interessasse. Adicionou que poderia levar quantos exemplares quisesse da Montessori Life, gratuitamente, e me deu uma camiseta, um caderno e adesivos também. Eu comprei dois livros, um sobre Educação Cósmica (que vocês sabem que me interessa demais) e outro que é um manifesto pela liberdade da criança.

Além disso, Marcy me deu contatos preciosos no meio montessoriano. Gente que sabe demais sobre Montessori para adolescentes e sobre Montessori em geral. Deu e-mail, nome, e passou um e-mail para algumas pessoas falando sobre mim. Em suma: uma querida no mais alto grau. Deus queira que um dia eu consiga retribuir de alguma forma!

Um dos contatos que ela me deu foi do Center for Montessori Education (CME) que, adivinhei, ficava bem na cidadezinha onde eu estou com os alunos, New Rochelle. Despedi-me, chorei, sorri, tirei fotos, e chegando na residência estudantil, sentei-me e enviei um e-mail para o CME pedindo uma visita também. Sobre essa eu conto no próximo post!

Um abraço para todo mundo,
de Nova Iorque, com uma pilha de livros novos para nós,
Gabriel

domingo, 10 de junho de 2012

10.000

Queridos leitores,

muito obrigado. Hoje (agora), o Lar Montessori acaba de atingir a marca de 10.000 visitas. Vocês estão nos tornando a fonte mais confiável sobre Montessori em casa em língua portuguesa.

Nossa meta não é esta. Nós não queremos só ser a melhor fonte, queremos também que as informações que nós sintetizamos, adaptamos e repassamos aqui se transformem em reflexão e prática no seu lar!

Afinal, todas as crianças merecem um Lar Montessori!

Abraços cheios de gratidão,
Gabriel

sábado, 9 de junho de 2012

Ordem em Família III: Rotina e Ritual




"-Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos." (Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)


Jacqueline Cossentino, pesquisadora de Educação e doutora por Harvard, passou algum tempo pesquisando uma escola Montessori e percebeu algo interessantíssimo que publicou em um artigo chamado “Habilidade de Ritualização: Uma visão não-montessoriana do Método Montessori”. Jaqueline sugeriu que dois itens que fazem parte da ordem do ambiente montessoriano e a utilização do tempo e o comportamento das pessoas. É uma visão extremamente valiosa.

Montessori descobriu que uma das tendências da infância é ter afeição à ordem, em todos os sentidos. Já escrevemos aqui no Lar o quando é importante que o ambiente onde vive a criança seja muito bem organizado, e nas últimas semanas explicamos como é importante que a fala dos pais seja clara e precisa. Toda essa organização se estende para a utilização do tempo com a família e para o comportamento dos pais.

A previsibilidade gera um imenso conforto para a criança, pois possibilita a sensação de certeza e a sensação de domínio sobre a vida e o mundo, que é muito importante para o desenvolvimento da personalidade, especialmente no que diz respeito à auto-estima e auto-confiança.

A utilização de agendas pode ser
uma boa ideia com crianças maiores.
A agenda da criança precisa ser bastante bem definida, inicialmente pelos pais, a partir da observação dos horários naturais da criança. É importante permitir que ela expresse como funciona seu relógio biológico e que a partir dele uma rotina seja criada. Quando a criança estiver indo para a escola ou fazendo atividades como ballet ou esportes, torna-se relevante que estas tenham um dia e um momento também. A brincadeira com os pais, é claro, pode acontecer a qualquer momento, mas que haja um momento diário de estar junto ainda que os pais estejam cansados demais para brincar, que seja para conversar, estar perto, ler uma história. Isso não deve ser acidental nem incidental, deve ser muito bem programado pelos pais, mesmo que a criança não tenha acesso à programação. A regularidade a ensinará quando esperar os pais para algo e quando não, por exemplo, evitando assim a frustração pela ausência deles.

A utilização de rituais também traz a sensação de domínio sobre o mundo (e aliás, é exatamente para isso que os rituais servem desde tempos imemoriais) e torna possível à criança organizar suas atitudes diante das diversas ações mais frequentes de seu dia-a-dia. Desde coisas muito simples, execute as ações com ele sempre na mesma ordem. Para se trocar, por exemplo, a ordem pode ser “sapato-meia-calça-cueca/calcinha/fralda-camiseta” ou o contrário, mas faça sempre do mesmo jeito. Na hora do banho também, ensaboe sempre determinadas partes do corpo primeiro e outras depois, e enxague na mesma ordem. Ao servir a comida, procure organizar os pratos em ordens semelhantes sempre, ex: “salada-prato quente-fruta”. Quando é que se escova os dentes? Como é que se escova os dentes? Ensine-o a fazê-lo em uma só ordem, para que a sequência seja gravada.

De manhã cedo como se faz? Levanta-se, lava-se o rosto e coloca-se a roupa? Utilize sempre a mesma sequência. Para nós, adultos, variar pode ser interessante, mas para a criança é confuso. Na hora de dormir, coloca-se o pijama primeiro, e depois se escova os dentes e se deseja boa noite? Antes de dormir o que se faz? Reza-se, lê-se? Inicialmente parece que é muito para pensar de uma só vez, mas você vai perceber que na verdade já tende a fazer tudo do mesmo jeito todos os dias, é mais uma questão de organizar os detalhes.

Seu filho ou sua filha terão uma compreensão muito maior da própria vida se puderem contar como foram seus dias, e isso funciona melhor quando existe uma ordem para suas ações. Assim, eles perceberão que dominam tudo o que fazem, e que conhecem o momento de cada afazer, e que sabem exatamente como cada ação de seu dia-a-dia é executada, sem confusão e sem muitas exceções. Isso tenderá a auxiliar a criança a se conhecer melhor, a confiar mais em suas capacidades de ação e a construir sua própria liberdade. Muito boa sorte!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ordem em Família II: Prêmios e Castigos


O método Montessori, por compreender que a criança é capaz de melhorar pelo prazer de se aperfeiçoar e por reconhecer que o maior prazer do aprendizado está no processo de aprender e não no que foi aprendido, é veementemente contra prêmios e castigos, no entanto, sei que este tema é polêmico, e reforço: a intenção do Lar Montessori não é avaliar a educação que você dá para sua criança. Nós estamos aqui para ajudar, para transmitir opções que julgamos interessantes e para contar o que uma das maiores mentes do século XX sugeriria para nós, do século XXI.

O maior prazer que podemos ter é aquele de estarmos satisfeitos conosco mesmos, de perceberemos que somos capazes de nos comportar como desejamos. Aliado a este está o talvez ainda superior prazer de aprender. A alegria de enxergar o mundo melhor do que enxergávamos antes e de, portanto, dominá-lo mais, só é comparável a alegria de dominarmos a nós mesmos. Desta forma, devemos nos esforçar ao máximo para que a criança possa sentir, em seu tempo e sem nenhum tipo de pressão externa, este tipo tão saudável de bem-estar.

Montessori conta uma história divertida. Certa vez, estava em sua sala de aula, em San Lorenzo, quando um senhor entrou na escola, como visita, para conhecer seu trabalho, já famoso à época. Ele trazia um saco com doces e bombons que iria dar às crianças. Entregou o primeiro para uma menininha que havia conseguido, com sucesso, desenvolver uma atividade complexa: ela deveria somar quantidades menores que dez de forma a chegar em 10 de diversas maneiras. Ela agradeceu pelo bombom, e com ele continuou a atividade, o utilizando para “bater” nas pecinhas que contava, de forma a contá-las com mais atenção.

Em uma outra situação, um garoto que teve um comportamento muito bom recebeu uma medalha de metal para pendurar no pescoço. Deveria ficar com ela sentado a uma cadeira, para servir de exemplo aos colegas. Um outro rapazinho, não tão bem comportado, veio até ele e lhe perguntou se podia usar a medalha. Imediatamente ele a tirou do pescoço e, com um olhar aliviado, voltou ao trabalho.

Montessori ainda reforça estes exemplos, explicando que a sensação de ser parabenizado após um aprendizado é de humilhação. Seria a mesma sensação de um cientista que, depois de ter descoberto a antimatéria ou a cura do câncer, recebesse uma medalha e tivesse de ficar sentado como exemplo para seus colegas. A vocação de um descobridor não é essa, seu prazer é o trabalho e o conhecimento, e assim é com todas as crianças.

Presentear uma criança pelo seu bom comportamento seria como dar um bombom a um monge que conseguisse manter o silêncio e a castidade. Seu prêmio é o amadurecimento de sua personalidade, a sua ascenção espiritual. O único que lhe poderia presentear não está entre nós.

Da mesma forma, o castigo não é uma prática saudável. O castigo reforça o erro, faz a criança pensar sobre o que fez de errado, e o que fizemos de errado não nos ensina. Ensina-nos, antes, repetir o comportamento certo, tanto o nosso quanto o alheio. Buscar alternativas dentro do que sabemos ser correto ou desejável. É sobre isto que devemos meditar, e não sobre o erro. Quando uma criança é colocada no quarto sem televisão, ou quando é privada de algum de seus prazeres por ter cometido um erro, existem dois sentimentos possíveis: o surgimento da raiva e o sentimento de culpa. Nenhum dos dois é produtivo para o aprendizado.

Quando houver um comportamente inadequado, não julgue a criança, julgue a ação. Em vez de dizer: “Que menino mal educado você é!” ou “Que garota mimada você está sendo hoje!”, diga “Seja gentil com sua avó, ela não gostou do que você disse” ou “Você já pediu coisas demais hoje, não podemos ter tudo sempre”. Novamente, é claro que de vez em quando perdemos a calma, exatamente como as crianças. E exatamente como devemos fazer com elas, devemos evitar a culpa, e procurar a melhora do comportamento.

Quando a criança for mais velha, vale a pena abordar as questões pelo lado racional. A partir dos seis ou sete anos, ninguém mais se satisfaz com “Menino mau!” ou “Bom garoto!” e nenhuma criança aceita que lhe digamos “Não faça isso” ou “Aja assim, e não daquela forma!”. É necessário, a partir de então, expor os motivos pelos quais determinadas ações são interessantes e produtivas e outras atitudes são inapropriadas e incomodam os que estão à volta.

Como conclusão, acho importante ressaltar que Montessori não evitaria nunca o carinho, a conversa franca e, por que não, o elogio. Tudo isso pode existir, sim, mas devemos ter em mente que não somos nós que recompensamos a criança pelo seu amadurecimento pessoal e pelo seu aprendizado. É ela mesma, sua mente e sua percepção da própria evolução.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ordem em Família I - Autoridade


O texto abaixo faz parte de uma sequência de três artigos a serem publicados nas próximas semanas. Este, primeiro, é sobre autoridade. O segundo será sobre prêmios e castigos e o terceiro sobre rotina.
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“- Se eu ordenasse que um general voasse de flor em flor como uma borboleta, ou que escrevesse uma peça de teatro, ou que se tornasse uma gaivota, e se o general não executasse a ordem que recebeu, qual de nós estaria errado? – O rei perguntou – O general ou eu?
- Você – respondeu o pequeno príncipe, com firmeza.
- Exatamete. Só se deve exigir o que as pessoas podem cumprir.  – O rei continuou – A autoridade que é aceita apoia-se, antes de tudo, na razão. Se você ordenasse a seu povo que se jogasse no mar, eles se levantariam em revolução. Eu tenho direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.” – Antoine de Saint Exupéry, em O Pequeno Príncipe.

Celma Perry, uma brasileira que é fundadora do Seton Montessori Institute, em Chicago, conta que certa vez estava em um consultório médico esperando ser chamada e que na sala de espera estavam um homem adulto e sua filha. A menina era aluna de Celma. A criança não parava, corria pela sala, subia nas cadeiras, fazia barulho. Celma, sabiamente, só observava, o pai estava presente e não era papel dela interferir, mas aos poucos a professora percebeu que o homem estava ficando nervoso, e que mais hora menos hora, alguém ia explodir, e alguém ia cair na choradeira.

Celma Perry, do SMI
Quando o pai estava a ponto de dar uma bronca na menina, Celma apontando para o tapete cheio de bolinhas azuis, começou a contá-las: uma, duas, três, quatro... E a menina então parou, olhou para o tapete, reparou nas bolinhas, e contou-as, por muito tempo. Celma relaxou, e o pai também, agradecendo à professora da filha pela ajuda.

A autoridade Montessori só é exercida em forma de bronca, em volume alto, em último caso. Se a criança está correndo risco físico ou fazendo com que mais alguém corra, ou se está prejudicando o ambiente de alguma maneira, vale tudo. O ideal é conseguir parar a criança sem a bronca, mas se a ela for necessária, melhor isso do que um ferimento. A pergunta que sempre fica é: E depois que parar, eu ensino onde ela errou?

Bom, não. Depois que parar, ensinamos o jeito certo, e não onde estava o erro. Ensinar o erro é reforçá-lo, é marcá-lo mais profundamente na mente da criança, é fazê-la aprender o errado, ainda que seja para não fazê-lo. Pais e mães não querem filhos inativos, apáticos, imóveis. O que desejam é que seus filhos sejam positivamente ativos, acertadamente animados, que se movimentem gentilmente no ambiente. Assim, não adianta dizer “Pare!”, “Não faça isso!”, “Não toque aí!”. Adianta, antes, parar a criança no momento de risco, se ele existir, e então explicar: “Quando você quiser pegar algo de vidro e for muito grande e pesado, peça ajuda. Se couber nas suas mãos, pegue com as duas mãos e devagar, assim...” ou “Em sofás a gente coloca o pé sem sapatos. O tecido é macio, coloque a mão aqui... Viu? Tire os sapatos e pode subir” ou, ainda sobre o sofá, “Cuidado, o sofá é fofo, está sentindo? O chão é duro. Caminhar no chão é melhor do que no sofá, no sofá você pode deitar e sentar de várias maneiras”.

É claro que eu sei que perdemos a calma de vez em quando. Acontece, e não há porque nos culparmos muito quanto a isso. Somos todos humanos. Pedir desculpas é bom, mas só se a falha foi grave. Não peça desculpas por qualquer bronca, afinal, pedir desculpas é reforçar o erro, e às vezes a criança nem lembra mais. Vale a pena se esforçar, isso sim, por mudar o comportamento da próxima vez.

Ordens devem ser dadas sempre como ordens, mas nunca sem gentileza. A criança ainda não tem pressupostos nem subentendidos, e precisa que tudo lhe seja colocado muito claramente para que compreenda. Quando algum comportamente for importante, seja claro: “Quando entrarmos no museu, fale baixo”, ou “Na casa da sua tia, não pegue nos copos de cristal, ela não gosta”, ou ainda “Vá tomar banho, temos que estar prontos logo para sair”. Tenha em mente que Só se deve exigir das pessoas o que elas pessoas podem cumprir e não peça para seu filho tomar banho em cinco minutos se ele invariavelmente demora quinze. Caso essa rapidez seja necessária, seja ainda mais claro: “Entre no banho, deixe cair só um pouco de água no seu corpo, passe rápido o sabão e o shampoo, enxague-se, lave bem as axilas e a genitália e seque-se rápido também, combinado?” (em Montessori aconselhamos a ciência sempre, e utilizamos os nomes científicos reais para todas as partes do corpo: pênis, vagina, ânus. No entanto, caso prefira, não há nenhum problema em se utilizar apelidos carinhosos em geral).

Ordens e favores são duas coisas diferentes. A criança pode escolher não fazer favores, mas não pode escolher não cumprir uma ordem. Por isso, a sua fala precisa deixar muito claro quando um favor é pedido e quando uma ordem é colocada – lembre-se, seja sempre, sempre, sempre gentil. Um favor pode ser colocado como: “Querido, você pode pegar os meus óculos na mesa, por favor?”, e uma ordem precisa ser colocada como “Querido, suba, pegue sua mochila e vamos para a escola”. No entanto, tenha em mente: embora pedir favores, quando são necessários, não seja errado, é sempre muito bom expressar a sua independência e mostrar que você pode pegar seus óculos, para que a criança aprenda que pode fazer as coisas dela sozinha, também.

Mães e pais com autoridade nunca são mães e pais autoritários. Repare que a autoridade existe quando a criança compreende o aduto. Autoritarismo existe quando o filho teme os pais. Aja sempre de forma razoável e procure educar pelo exemplo. Se você pedir silêncio, mas falar alto, se você pedir ordem, mas for bagunceiro, se pedir que seu filho leia, mas só assistir TV, esqueça, não há como ser obedecido. Mas se souber mostrar como se age certo, as chances são de que mandar quase não seja necessário!

sábado, 21 de abril de 2012

O que aconteceu com o Lar?

Leitores queridos,

Opa! O Lar Montessori está amarelo!
Sim! Ele está amarelo para comemorar a finalização do texto básico do primeiro livreto a sair sob o selo Lar Montessori!

Eu espero que vocês tenham notado a ausência de um novo post na última quinzena, e peço desculpas por isso. Eu vou escrever sobre disciplina na quinzena que vem. Nesta, estou concentrando todos os meus esforços na finalização do "Uma Introdução ao Método Montessori".

A ideia desse livrinho é auxiliar pais, mães e professores a dar os primeiros passos no método Montessori, e assim expandir um pouco as fascinantes ideias que discutimos aqui no Lar. Escolas de todo o Brasil receberão este livreto, e ele poderá ser adquirido de alguma forma aqui pelo blog ou baixado no seu computador.

Como vocês sabem, eu não aceito fazer propagandas aqui, nem mesmo as do Google entram (e olha que o Google é o maior exemplo de empresa Montessori no planeta!). Assim, não ganho um centavo com o Lar. Em compensação, ganho a alegria de saber que tantos pais e mães estão felizes com as nossas sugestões.

Como vocês também sabem, produzir um livro custa uma pequena fortuna, por menor que seja o livro. E como vocês suspeitam - espero eu - eu não vim aqui pedir dinheiro. Quero, isto sim, ajuda.

Preciso de leitores outros que possam analisar o texto do livro sob os seguintes aspectos:

1. Correção gramatical;
2. Clareza;
3. Diagramação textual e
4. Utilidade da informação.

Se você só puder analisar um destes pontos, eu já agradeço bastante. Se puder analisar mais de um, agradeço mais ainda. Quem já tiver alguma experiência com revisão textual e quiser ajudar nisso, seria louvável. Aproveito para dizer que, claro, os nomes daqueles que ajudarem aparecerão na apresentação do livro, com uma mensagem de gratidão.

Se algum de vocês tiver contatos com uma boa gráfica, que produza livros independentes, por favor fale com a pessoa que você conhece. Eu quero distribuir este livrinho por todo o Brasil, e isto também custará dinheiro, então se a produção puder ficar mais barata, eu fico feliz.

Um abraço forte e minha gratidão adiantada,
Gabriel

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Pequenos Artistas – a criança e a arte em Montessori


Por meio de suas longas observações, Montessori percebeu que a criança passava por diversos períodos sensíveis. De zero a seis anos, a criança está numa fase de intensa absorção de seu ambiente e ao mesmo tempo se trata de um período durante o qual os sentidos estão à flor da pele, buscando serem educados. Os materiais Montessori para primeira infância trabalham justamente com a ideia de educação sensorial, assim, há séries de materiais que educam os olhos para a discriminação minuciosa de cores e tons, para a identificação de formas geométricas mais e menos semelhantes, para texturas, pesos e tamanhos com gradações de variação, do óbvio ao quase imperceptível.

Crianças de cinco anos já são capazes, por treino voluntário, de identificar notas musicais, formas geométricas as mais variadas, sessenta e quatro tons e cores e são capazes de perceber acuradamente diferenças de tamanho, peso ou textura. Este seria, para Montessori, o início do treino dos sentidos necessário à apreciação artística. Os olhos estariam educados para notar a utilização de cores e formas, os ouvidos para perceber a melodia, as mãos para sentir e para criar, já que há razoável abundância de materiais que treinam o controle motor dos braços, mãos e dedos.

Estar “educado” aos cinco anos não quer dizer, no entanto, que não se possa tirar prazer da arte antes disso. Nas salas de aula Montessori, e na sua casa pode ser assim também, sempre há uma música tocando. Quase invariavelmente se trata de música clássica, pelo tipo de melodia que não atrapalha a concentração e auxilia a percepção musical da criança. As paredes são decoradas com quadros renomados, para que desde a primeira infância possa-se ter contato com as obras de arte fundamentais da civilização.

A mobília dos ambientes deve ser muito limpa e muito bem organizada, para que haja menos confusão de estímulos e aquilo que for relevante para os sentidos possa ser absorvido. As cores do ambiente devem ser suaves, embora os quadros possam trazer cores mais fortes. Alguns argumentam que a música poderia atrapalhar a concentração. Estudiosos do tema, no entanto, dizem que pequenos ruídos não só não atrapalham a concentração, como podem auxiliar seu desenvolvimento.

O quarto de seu filho pode ter belos quadros na parede, e você pode perguntar a ele o que ele vê na gravura, e ao mesmo tempo contar o que se passa na ilustração. Dê os nomes dos quadros e dos pintores, crianças pequenas adoram categorizar coisas mentalmente, e pode ser um atrativo a mais apreender os quadros por pintores ou por seus nomes.

Se seu filho já aprendeu as cores, você pode perguntar que cores existem no quadro, e permitir que ele aponte onde está cada cor, mas nunca force sua atenção, faça tudo de forma que seu filho seja livre para demonstrar que não quer mais a qualquer momento. A arte deve ser algo agradavelmente absorvido e aprendido, e não uma sequência de lições forçadas que o façam saber todas as datas e os nomes, mas o façam desistir de visitar museus para sempre, sob a alegação de monotonia.

A produção artística é objeto de intenso debate entre estudiosos montessorianos. Alguns argumentam que o desenho deve ser guiado por exercícios para as mãos, outros dizem que enquanto há exercícios, deve haver também oportunidade para o desenho livre. Maria Montessori sempre foi adepta da espontaneidade infantil, de forma que considerava o desenho livre algo fundamental à sala de crianças pequenas.

Ela percebeu, no entanto, que havia uma melhor desenvolvimento da habilidade manual da criança, e até uma preferência por parte dos pequenos, se inicialmente se permitisse o desenho livre por algum tempo, até serem inseridos os primeiros exercícios de desenho, baseados no contorno de formas geométricas em metal. Em seguida, se ensinaria a traçar linhas retas e a respeitar as bordas, para depois se ensinar a utilização de um mesmo lápis colorido para a produção de diferentes tons de cor e finalmente, depois de a mão se ver educada, se retornaria ao desenho, desta vez baseado em observação, um desenho que partisse da realidade.

Montessori enfatizou também a importância da música e disse que não só deveria haver a possibilidade de todas as crianças aprenderem um instrumento depois de serem educadas para a percepção e leitura musicais, mas que também todos os professores da primeira infância deveriam saber tocar pelo menos um instrumento, para que as crianças pudessem reconhecer as notas para além do som produzido pelo material musical básico, que é composto por sinos de metal que produzem uma escala completa.

Como sempre, se a criança demonstrar vontade de se desenvolver mais nas áreas ligadas à arte, esta liberdade lhe deve ser dada, e se deve perceber por observação o que é que ela busca, e auxiliá-la por meio de materiais e instrução. Caso seu filho demonstre que gosta de pinturas, procure mostrar a ele livros de mestres da pintura com diversas gravuras, e ensine um ou outro nome mais importante. Dê-lhe pequenas biografias de pintores para ler, para que se inspire, e se o interesse chegar a este ponto, procure um professor de desenho para crianças, que seja ao mesmo tempo libertário e rígido, para que seu filho possa seguir seus interesses e tendências pessoais, mas para que sua mente se sinte desafiada, e não somente propensa a criar rabiscos durante algumas horas todas as semanas.

O mesmo se dá quanto a instrumentos musicais. Se seu filho demonstra gosto por música, e você percebe bem estar, contentamento ou interesse durante uma boa peça, pergunte a ele se gostaria de aprender a tocar, e ensine-o, ou encontre alguém que possa ensiná-lo. Novamente, pense em um professor que enxergue sua criança como um ser humano, e que o respeite, de forma a permitir a ele a liberdade necessária e exigir dele o esforço que torna tudo mais interessante.

Lembre-se, porém, que seu filho somente passará a cultivar o gosto pela alta arte a partir do momento em que tiver alguém em quem se espelhar. Ele passará muito tempo diante de um quadro se vir que há o que descobrir nele, e só verá isso se seus pais examinarem as obras com atenção e interesse verdadeiros. O mesmo se dará com a música. Pais que escutem música e conversem sobre tendem a cultivar o gosto e a educação musical nos filhos. Idas a museus não devem parecer nunca uma tarefa a cumprir, mas algo tão divertido quanto ir a um cinema ou um parque. Sendo a Literatura uma forma de arte, aproveito para ressaltar que o amor pela leitura tem a mesma fonte: não adianta ler para seu filho. Ele tem de ver que você lê para você também, por prazer e interesse, para que haja sentido ele o fazer sozinho, e não só em dupla com os pais e professores.

Guarde sempre nossos princípios maiores: expor a criança ao estímulo necessário, falar somente o estritamente relevante, e observar sua reação ao objeto, à imagem ou ao som. A partir da reação do seu filho é que você dará o próximo passo, e não por meio de um plano pré-estabelecido de educação artística. A percepção da arte deve partir de dentro dele, e não ser imposta de fora, pois se brotar da própria criança, durará por toda a vida, e será uma inesgotável fonte de interesse, aprendizado e bem-estar. O que mais podemos desejar para um pequeno artista?