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sábado, 27 de outubro de 2012

Normalização II: O Equilíbrio Natural da Criança

"Para aqueles que compreendem a vida, isto
pareceria sem dúvida muito mais verdadeiro."
(Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)

   Para os admiradores de Montessori, especialmente no início de suas realizações, o processo de recuperação do equilíbrio natural da criança que acontecia nas Casas dei Bambini era comparado a um milagre e uma conversão religiosa. Os efeitos da liberdade em um ambiente preparado conseguidos pela pedagogia científica da médica italiana a levaram a ocupar longos artigos, diversas entrevistas e belas fotografias em jornais de todo o mundo. Ainda assim, no entanto, poucas pessoas compreenderam bem como Montessori o que realmente estava acontecendo: surgia, diante dos olhos de todo o mundo, o equilíbrio natural da criança. "Eu aponto para as crianças", Montessori dizia, "e as pessoas olham para meu dedo".

   As crianças para quem ela apontava eram especialmente silenciosas, gostavam muito de trabalhar com os materiais didáticos e eram extremamente organizadas. Falava-se, na sala, mas baixinho, e ria-se na sala, mas com mais frequência havia sorrisos. As crianças mais novas às vezes esqueciam de guardar o que haviam utilizado, mas as mais velhas sempre lembravam, e tudo isso mantinha o clima da sala atrativo para todos os visitantes. Montessori, no entanto, reafirmava: esta é a natureza da criança. Elas são assim. Em um ambiente preparado onde sejam deixadas em liberdade, elas são naturalmente assim. O processo pelo qual elas estão passando se chama normalização, e elas são crianças normalizadas.

   Devido a dezenas de traduções e mudanças de significado da palavra normal, a ideia de normalização é sempre mal compreendida e parece aos leitores e estudantes de Montessori, assim como aos pais, que se trata de algo que o professor faz com o aluno. Na verdade, é algo que a criança faz a si mesma. Por isso,  depois de uma extensa conversa com a Profª Edimara de Lima, diretora da PRIMA - Escola Montessori de São Paulo, que tive há vários meses e sobre a qual fiquei pensando desde então, decidi adotar, no Lar Montessori, o termo "Equilíbrio Natural da Criança" para tratar do que Montessori e seus contemporâneos chamavam de criança normalizada.

   E.M. Standing (autor de "Maria Montessori: Her Life and Work"), amigo pessoal de Montessori e grande estudioso de seu método, conseguiu estabelecer uma lista de características mais comuns às crianças naturalmente equilibradas. As marcas que ele encontrou foram as seguintes:

  •  Amor à ordem;

   A criança pequena precisa de um ambiente organizado. Nos primeiros meses ela não poderá organizar nada, então, quando desorganizar algo, procure restabelecer tudo. Isso realmente faz bem, agrada e tranquiliza a criança. Quando ela for mais velha, a partir dos dois ou três anos, é bom começar a ensinar a guardar as coisas. Colocar no lugar depois de usar. Para isso, mantenha tudo o que a criança usar em uma altura que ela possa alcançar. Como as crianças gostam de ordem, guardar as coisas será algo que farão com tranquilidade. Até os seis anos, pode ser necessário lembrá-las com bastante frequência, e ajudar umas três vezes ao dia. Aos poucos, a criança aprende a guardar o que usa, e faz isso com eficiência!
  •  Amor ao trabalho;
   Assim como o amor à ordem e todas as outras características, esta é inata. No entanto, no caso do amor ao trabalho, não precisamos incentivar a criança a trabalhar. Ela faz isso com o que quer que encontre em seu caminho, naturalmente. Nosso papel aqui é orientar este trabalho de forma que ele seja mais produtivo para a formação interna do ser em desenvolvimento. Ensinar as atividades passo-a-passo, devagar e objetivamente é uma maneira de engajar a criança em atividades interessantes e garantir que ela possa fazer as coisas sozinha da próxima vez. A outra forma, tão importante quanto, é dar atividades para as quais a criança esteja preparada - assim, garantimos a possibilidade de sucesso e, ao contrário do que pensamos, a criança aprende com o acerto, e não com o erro.

  •  Concentração espontânea;
   Quando a criança é muito pequena, é comum que mantenha os olhos em um ponto fixo. Mais tarde, a vemos tentando pegar coisas com muita força de vontade. Depois, em um ambiente preparado, a vemos se esforçando por montar peças, empilhar coisas, encaixar pedaços, decifrar enigmas. A concentração espontânea é, além de uma das características mais belas, uma das que mais devem ser respeitadas. A concentração só pode ser espontânea. Dizer "preste atenção" ou "pare de fazer o que está fazendo e venha comigo" são duas formas de interromper o fluxo de concentração, e não de inciá-lo. A atividade produtiva livre é a única forma de permitir que a criança desenvolva mais esta característica natural.

  •  Apreensão da realidade;
   Isso é o que a criança está tentando fazer desde o momento em que abriu os olhos ou os ouvidos para seu ambiente. Desde a primeira vez em que sentiu o ar entrar pelas narinas ou moveu os braços e os dedos, a criança tenta compreender e internalizar a realidade que a cerca. Nossa tarefa, como pais, mães e professores, é garantir que ela consiga fazer isso. Por meio de um ambiente preparado para ela, no qual ela possa olhar coisas bonitas e interessantes, pegar e sentir todo tipo de objetos e ouvir os sons do mundo, nós oferecemos para a criança todas as possibilidades de apreensão da realidade, para que ela use à sua maneira e no seu ritmo. Assim, permitimos que ela aprenda sozinha e obedeça sua tendência normal de desenvolvimento.

  •  Amor ao silêncio e ao trabalho solitário;
   Parece um pouco assustador, à primeira vista, que uma das características da criança seja querer ficar quieta e trabalhar sozinha durante alguns períodos, às vezes bem longos, de seu dia. Na verdade, no entanto, encontramos esta mesma característica naqueles que se esforçam pelo bem da humanidade: nos cientistas e nos monges. Desligar a televisão, falar baixo com o cônjuge ou irmãos mais velhos e não interromper seu filho são as melhores formas de garantir que ele possa continuar a formar um ser humano internamente. Procure não o forçar a trabalhar em grupo. Durante os primeiros seis anos isso pode ser chato. Trabalhar individualmente não o fará mais egoísta - ao contrário, o ajudará a se tornar um pequeno ser humano completo e que, portanto, poderá doar-se com mais vontade mais tarde.

  •  Sublimação do instinto de possessividade;
   É diferente gostar dos objetos e querer tê-los só para si. Admirar objetos, cuidar deles e querê-los em ordem e bom estado é natural da criança. Recusar-se a dividir, ou amar os objetos mais do que os trabalhos que se pode realizar com eles não são atitudes naturais nem comuns e em geral tratam-se de comportamentos incentivados por aqueles que circundam a criança. Objetos não devem ser queridos por si, mas pelo que permitem realizar - mesmo no caso de uma obra de arte, não deve ser ela o mais importante, mas a beleza e o aprendizado que transmite. Ajudamos a criança com isso quando não damos valor excessivo aos objetos e enfatizamos mais as vivências do que as posses no dia a dia. Criar plantas e animais, assim como dividir brinquedos com irmãos e amigos também ajuda.

  •  Poder de agir por escolha;
   A criança, quando nasce, age por princípios naturais de desenvolvimento e por tendências de comportamento inatas. Só com o tempo é que consegue desenvolver a capacidade de agir por escolha. O desenvolvimento desta habilidade é natural, e tende a acontecer mesmo sem nossa ajuda. Podemos ajudar, porém, com o jogo do silêncio e várias outras atividades das quais a criança goste e nas quais o objetivo principal seja conter um determinado tipo de comportamento. Somente aprendendo a conter um comportamento a criança (e mesmo o adulto) aprende a agir por escolha e não por vontade inconsciente. Estas atividades, no entanto, precisam ser feitas de forma agradável, mesmo divertida, e nunca violentando a liberdade da criança.

  •  Obediência;
   Parece contraditório defender a liberdade da criança e ao mesmo tempo explicar porque a obediência é natural. Mas não há nenhuma contradição. Primeiro, porque se é natural, faz parte de sua liberdade e, segundo, porque não falamos de uma obediência cega e despropositada. A obediência é um desenvolvimento importante a adorado pela criança porque ela percebe - embora inconscientemente - que é capaz de determinar seus atos e de agir em consonância mesmo com a vontade de outra pessoa, criando assim o princípio do sentimento de comunidade dentro de si, ao mesmo tempo que aumenta seu poder de agir por escolha. Não ajudamos a criança lhe dando todo tipo de ordens o tempo todo, isso nunca deve ser um hábito. Mas pedir favores de vez em quando, determinar rotinas e brincar de desafiar seu filho a fazer algumas coisas - como brincadeiras, jogos, e não ordens com desobediência sujeita a punições - podem ser excelentes maneiras de incentivá-lo a desenvolver suas capacidades.

  •  Independência e iniciativa;
   Se você segue o Lar Montessori há algum tempo, ou se vem criando seu filho com liberdade - conhecendo ou não os princípios montessorianos - sabe que independência e iniciativa são evidências de uma criança que vem se desenvolvendo com tranquilidade e respeito. Não há uma forma só de incentivar isso, mas tudo o que publicamos no Lar ajudará com essa parte. O ambiente preparado, a liberdade e o respeito são as melhores formas de permitir à criança desenvolver a liberdade e a iniciativa. Eles gostam de descobrir como fazer, e gostam muito de fazer. Tudo o que nos cabe é ajudar com tudo o que pudermos.

  •  Auto-disciplina espontânea;
   Porque a criança desenvolve as capacidades latentes e inatas de obediência, amor ao silêncio, ao trabalho, à ordem, ação por escolha, independência e iniciativa, é claro como água que o primeiro resultado é a auto-disciplina espontânea. Para ajudar nesta etapa do desenvolvimento, é muito bom que desenvolvamos uma rotina fácil, leve e repetida, que consigamos lidar bem com a autoridade e que haja liberdade e respeito ao tempo e às preferências da criança. São assuntos complexos, já abordados no Lar, mas que exigem mesmo um longo período de tentativas. Como a auto-disciplina é um dos dois maiores resultados da recuperação do equilíbrio natural da criança, ela depende de todo o resto para acontecer. Atente para o resto, e ela, como todas as características, surgirá naturalmente.

  •  Alegria.
   Chegamos ao final, nada surpreendente, da nossa lista. Este é o ponto culminante de um desenvolvimento saudável. A cultura ocidental por vezes nos faz achar que o sofrimento, a dor e o mal estar emocional e psicológico são necessários. Não são. A cultura oriental, com a qual Montessori conviveu durante dois dos mais importantes anos de sua vida, nos ensina que os acontecimentos são necessários, mas que sofrer ou não por eles depende da maturidade psicológico-emocional daqueles envolvidos nos acontecimentos. A alegria não vem da ausência de acontecimentos desagradáveis - eles existem. Vem, antes, da capacidade humana de agir por escolha, de conseguir sublimar o instinto de possessividade e de ser alegre, por causa e apesar de tudo.
   Por sorte, no entanto, acontecem mais coisas boas que coisas ruins, e na maior parte do tempo a criança não tem nenhum motivo para ficar triste ou para aprender a lidar com acontecimentos desagradáveis. Na maior parte do tempo, em liberdade e em um ambiente preparado, a criança tem tudo que seu corpo e sua psique pedem, tudo o que é necessário para desenvolver-se física, psicológica e emocionalmente e, por isso, é contente, sente-se satisfeita consigo e com o mundo e em geral sorri bastante. A alegria de uma criança que passou pelo processo de recuperar seu equilíbrio natural é radiante, mas nem por isso é escandalosa. Percebemos essa alegria na tranquilidade, no bem estar ameno e nas pequenas e suaves comemorações a cada desafio que consegue superar.

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Será fantástico saber como estão sendo as coisas na sua casa e saber a sua opinião sobre o processo que comentamos aqui. O que você achou da mudança de nome que nós sugerimos? Quais dessas características são mais marcantes no seu filho? Como você lida com situações nas quais seu filho precisa ficar algum tempo em ambientes que não são preparados para ele? Quando falar das crianças, por favor, nos conte a idade delas, para sabermos sobre quem estamos conversando!
Um grande abraço!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Normalização I: O Respeito pela Criança

Este texto faz parte de uma série de dois artigos sobre normalização. Este é sobre o respeito à criança. O próximo será sobre a normalização em si, que já foi chamada de milagre da educação e conversão natural da criança, ambas denominações errôneas para um processo que nada mais é além da recuperação, por parte da criança, de tendências que lhe são naturais. Seja bem vindo, e antes de ler este texto, leia o Manual da Criança Montessori, disponível aqui no Lar!

   "Montessori segue os caminhos da Natureza", disse E.M. Standing, explicando o ponto de apoio mais importante de todo o método Montessori. Temos sempre de lembrar que a Natureza sabe o que faz, e que os maiores milagres só podem ser operados pela natureza sendo deixada em liberdade para agir dentro e fora da criança. A natureza aprisionada perde sua magia - vemos isso claramente nos pássaros que nascem livres e são engaiolados, nos peixes capturados do mar, nas meninas e meninos que são colocados, contra a vontade, em clausuras e mosteiros.

Nasce daí uma obediência que pode ser interpretada como virtude, mas também nasce daí a diminuição da vontade de viver, e os seres vivos aprisionados deixam de emanar aquela energia que é tão bela de se ver numa criança livre, em um pássaro em liberdade ou em uma mata virgem: a Natureza livre não recebe esta liberdade de ninguém, ela nasce assim e só com esta liberdade mantida é que pode operar as maiores maravilhas do mundo.

A criança nasce livre. Se nós a mantivermos livre, ela, como todos os outros seres da natureza, agirá conforme sua capacidade e exigirá do mundo conforme sua necessidade. Se for deixada em liberdade, não irá querer mais do que precisa, não irá rejeitar o pouco de que precisa, irá se comportar como seu ambiente natural permite: com amor ao silêncio, amor ao esforço-aprendizado e amor à ordem interna e externa. Estas são as direções inatas da criança que Montessori percebeu por suas observações e que Standing tão sabiamente sumarizou em seu "Maria Montessori: Her Life and Work".

Qualquer pai, mãe, irmão ou professor percebe algumas coisas em crianças muito pequenas: elas gostam de silêncio ou sons bastante suaves, mas o barulho incomoda muito, quase machucando. Gente falando muito alto com elas também é ruim, assim como pessoas muito bem intencionadas que falam com "voz de bebê", ou pessoas ainda melhor intencionadas que lhes presenteiam com DVDs de programas de televisão, desenhos animados ou programas educativos. Elas gostam de silêncio, músicas baixas, suaves e tranquilas, sons da natureza e a voz humana em volume e quantidade moderada.

Todos nós também sabemos que crianças são curiosas. É por isso que não deixamos medicamentos ao alcance de crianças, que tomamos cuidado com brinquedos com peças pequenas que podem ser engolidas, que procuramos esconder todas as tomadas, colocar uma portinha na escada, ficar sempre de olho quando o fogo está aceso, e também é por isso que perdemos a calma com seus "por quês?", "comos?" e "quandos?". Evitamos que coloquem coisas na boca e que coloquem a mão em animais perigosos ou peçonhentos.

Por último, sabemos intuitivamente que as crianças amam a ordem, embora nem sempre respeitemos isso. Sabemos que gostam de roupas claras e suaves, que seus quartos lhes agradam mais quando tem poucas coisas, que elas não precisam de muitos brinquedos, de muitos objetos ou de muitos materiais, que lhes basta muito pouco para se sentirem realmente bem e que tudo de que necessitam é que esse pouco seja muito bem escolhido, muito limpo e muito bem organizado. Nada precisa ser muito, ser grande ou ser caro, basta que seja muito bem cuidado e organizadinho.

   Acontece, porém, que como não respeitamos sempre essas necessidades da criança, acabamos por reprimir (e eu não gosto muito dessa palavra, mas é isso) a natureza dela e forçamo-la a adotar posturas artificiais diante do mundo. É por isso que crianças que nasceram amando o silêncio acabam gostando de programas de televisão e desenhos animados irrealistas e violentos, é por isso que os pequenos bebês curiosos aos poucos se tornam cansados e apáticos diante do mundo e crescem como alunos que perguntam se "vai cair na prova" em vez de perguntar "Por quê?" e é também por isso que aquelas criancinhas que adoravam tudo no seu lugar acabam por largar tudo no meio do caminho e por jogar tudo no chão em sinal de protesto.

O respeito à natureza da criança vem de duas formas bastante simples, na verdade, e que englobam todas as outras formas menores: respeito pelo espaço e pelo tempo.

   O respeito pelo espaço da criança é manifestado pela escolha sábia daquilo que será útil. Não é útil comprar dez brinquedos antes de a criança nascer. Nem é útil que ela tenha vários brinquedos de um mesmo tipo ou qualquer coisa assim. Este tipo de presente alimenta uma forma nada natural de vontade de possuir.

É útil dar à criança aquilo que suas atividades ou manifestações pedem. Quando ela começa a querer ouvir sons mais de perto ou a provocar sons com o corpo e com o que está em volta, é interessante lhe dar pequenos instrumentos, chocalhos, o violão da família, ou mesmo permitir que batuque em potes, móveis da casa e lhe oferecer músicas clássicas, instrumentais e sons da natureza. Da mesma forma podemos estimular todos os outros sentidos.

Outro ponto muito importante para o respeito ao espaço é organizar a casa. Casas com crianças precisam ser casas arrumadas. Eu sei que é difícil, mas é assim que tem que ser. É da sua capacidade de organizar o caos que advirá a capacidade da criança de manter tudo organizado. A ordem lhe agrada, e agrada muito, mas ela só sabe que gosta de ver tudo organizado, não nasce sabendo organizar. Então, precisamos guardar as coisas que ela desarruma durante alguns anos, depois, aos poucos, podemos ensiná-la a guardar também. Tu-do or-ga-ni-za-di-nho!

Para tudo ficar em ordem e essa ordem poder ser percebida, não pode haver muita coisa. Um quarto de criança montessoriano é um quarto clean, minimalista (aprendi a palavra esses dias e adorei), quase vazio. Tem o necessário, e o necessário sempre é pouco.

O último ponto muito importante de respeito ao espaço da criança é que a casa inteira deve ser o ambiente dela (menos a cozinha, porque no começo é um ambiente perigoso demais. Aos poucos esse pode ser explorando junto com você e aos dois anos o acesso já pode ser livre). Não deve haver um quarto completamente adaptado ao seu tamanho e todos os outros com coisas grandes e inalcançáveis. Se você não conseguiu adaptar a casa toda ainda, feche as portas ou coloque grades nos ambientes não adaptados, assim você lembra que precisa adaptar o mais rápido possível e ela não se frustra por ser mais baixa que todo o resto do mundo.


   O respeito pelo tempo da criança é ainda mais simples: basta compreender que o ritmo dela é completamente diferente do seu. Algumas coisas, para você, são rotineiras e desimportantes. Para ela, nada é um hábito. Ela acabou de chegar no mundo, ainda não sabe como as coisas funcionam. Fechar o zíper é uma experiência sensorial, amarrar o tênis é um desafio motor, subir em uma escadinha é uma aventura cheia de suspense.

Dizer para ela ir mais rápido não adianta, porque não faz o menor sentido. Ela não entende porque alguma coisa é mais importante do que aquilo que ela está fazendo no momento. E na verdade ela está certa, nada é mais importante. Ela está construindo um ser humano lá dentro dela. Está desenvolvendo as habilidades necessárias para a manutenção da civilização. Ela é responsável pelo trabalho mais nobre do mundo e deve ser respeitada e admirada por isso. Hierarquicamente, a criança sempre estará acima de nós, porque é ela que nos cria.

Precisamos organizar o nosso tempo para que possamos respeitar o tempo dela. Se sabemos que demora demais para comer, precisamos começar a almoçar mais cedo. Se demora muito para se vestir, teremos de marcar o passeio para mais tarde. Ela vai demorar bastante para muita coisa, quase sempre, e vai querer repetir tudo de que gostar. A repetição é fundamental e agradável para ela. Permita.

Respeitar o tempo não significa desistir da rotina. Veja o texto sobre rotina e ritual para entender melhor esse assunto, mas saiba desde já: estabelecer um horário para dormir é bom, mas isso não deve ser forçado demais. A criança pode indicar devagar qual a hora mais apropriada para seu sono, ou você pode induzir devagar um horário necessário para a família. A mesma coisa para comer. Pode haver horários para as refeições, mas eles precisam respeitar o apetite dos pequenos. 

  Tenho certeza de que fazendo tudo isso você estará respeitando a natureza da criança que vive com você. E uma natureza respeitada leva inevitavelmente a uma vida mais prazerosa, mais cheia de energia, de sorrisos, de alegrias e de contentamento. Haverá episódios de manha, de rebeldia. Analise essas situações, tente entender porque elas aconteceram. Não se vingue com broncas fortes demais ou palmadas. Entre vocês dois, você tem de ser o ser humano que sabe mais e o mais maduro. Ela está aprendendo, e está criando, lá nas profundezas de sua natureza, um próximo ser humano, sábio e maduro também.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Manual do Proprietário de uma Criança Montessori


Texto de Donna Bryant Goertz, disponível em http://mariamontessori.com/mm/?p=1674
Tradução de Gabriel Merched Salomão distribuída com autorização da autora


   Queridos pais,

   Eu quero ser como vocês. Eu quero ser exatamente como vocês, mas quero me tornar como vocês do meu jeito, no meu tempo, pelos meus esforços. Quero assistir a vocês e imitar vocês. Eu não quero ouvir vocês, a não ser por umas poucas palavras de cada vez - a menos que vocês não saibam que eu estou ouvindo. Eu quero trabalho, quero realmente me esforçar com algo muito difícil, algo que eu não consiga fazer imediatamente. Eu quero que vocês deixem o caminho livre para os meus esforços, e quero que me dêem os materiais e ferramentas necessárias para que o sucesso seja possível depois das dificuldades iniciais. Eu quero que vocês me observem e vejam se eu preciso de uma ferramenta melhor, um instrumento mais do meu tamanho, uma escada mais alta e mais segura, uma mesinha mais baixa, uma caixa que eu mesmo possa abrir, uma estante mais baixa, ou uma demonstração mais clara de algum processo. Eu não quero que vocês façam para mim, ou me apressem, sintam pena ou me parabenizem. Só fiquem calmos e me mostrem como fazer as coisas devagar, muito devagar.

   Eu vou querer fazer um trabalho todinho de uma vez e sozinho porque eu vejo vocês fazendo, mas isso não funciona para mim. Sejam firmes e coloquem limites para mim nessa hora. Eu preciso que vocês me dêem pequenas partes do trabalho inteiro e me deixem repetir de novo e de novo, até que eu faça tudo perfeitamente. Vocês dividem o trabalho em partes que serão muito difíceis, mas possíveis de fazer com bastante esforço, com muitas repetições e com muita concentração.

   Eu quero pensar como vocês, comportar-me como vocês, e ter os mesmos valores que vocês. Eu quero conseguir tudo isso pelo meu trabalho, imitando vocês. Falem devagar. Usem poucas e sábias palavras; Movimentem-se devagar; Façam as coisas em câmera lenta para que eu possa absorvê-las e imitá-las.
Se vocês confiarem em mim e me respeitarem, preparando meu ambiente doméstico e me dando liberdade dentro dele, eu vou me disciplinar e cooperar com vocês mais pronta e frequentemente. Quanto mais vocês se disciplinarem, mais eu vou me disciplinar. Quanto mais vocês obedecerem as leis do meu desenvolvimento, mais eu obedecerei vocês.

   Nós temos tanta sorte, eu e vocês, que dentro de mim haja um plano secreto para o meu jeito de ser como vocês. Eu sou guiado pelo meu plano secreto. Eu sou feliz e estou seguro o seguindo. É irresistível para mim. Se vocês interferirem com o trabalho de me revelar de acordo com meu plano secreto e tentarem me forçar a ser como vocês do jeito de vocês, no tempo de vocês e pelo esforço de vocês, eu vou esquecer de trabalhar no meu plano secreto e vou começar a lutar contra vocês. Eu decidirei levantar guerra contra vocês e contra tudo o que vocês defendem. É minha natureza. É meu jeito de me proteger. Podem chamar isso de integridade.

   Dependendo da minha personalidade, eu promoverei uma guerra mais aberta ou mais encobertamente. Eu brigarei mais ativa ou passivamente. Uma quantidade imensa de minha energia, do meu talento e inteligência será desperdiçada. Vocês vão ganhar no final, provavelmente, mas eu serei só uma versão mais fraca, uma substituição pobre, um molde tosco daquilo que eu sou capaz de ser, e vocês vão ficar exaustos. Por favor, aliviem a tensão para todos nós preparando o ambiente em casa para que eu possa executar meu trabalho de criar um ser humano e vocês possam se manter no trabalho de educar um. Eu farei o que faço melhor e vocês farão o que fazem melhor.

   Eu sou capaz de ser o melhor exemplo de suas melhores qualidades e valores expressos do meu jeitinho. Se vocês prepararem a casa cuidadosa e completamente para mim, mantiverem meus materiais em ordem e em bom estado, colocarem limites claros e firmes, derem-me períodos longos e lentos para trabalhar no meu plano secreto, eu farei o trabalho de desenvolver um novo ser humano - eu! Eu mencionei que preciso dos materiais em todos os ambientes da casa? Eu preciso de materias disponíveis para acesso rápido e fácil, sempre que eu estiver em casa e onde quer que vocês estejam. Eu preciso ter a opção de trabalhar e brincar perto de vocês. Na maior parte do tempo, eu preciso fazer as atividades perto da estante ao qual elas pertencem para que eu crie o hábito de guardá-las depois de usar.

   Meu plano secreto para me desenvolvier é executado totalmente pela mão - mãos, digo, as minhas duas, para ser exato. Eu sou um bom artista, um excelente artesão e preciso das melhores ferramentas e materiais. Não me dê coisas inúteis e em excesso, só uns bons materiais que sejam completos e estejam em bom estado. O excesso é pior que desnecessário; é perturbador. Atrapalha meu processo criativo. Me deixa irritado e eu coopero menos com vocês. Eu sei que é difícil de acreditar que por meio das atividades que eu escolho e executo independentemente e em estado de profunda concentração eu esteja desenvolvendo meu caráter, mas é verdade. Eu não posso fazer um bom caráter com um excesso de coisas inúteis e no meio da bagunça.

   Minha casa é meu estúdio e meu ateliê, então por favor, certifiquem-se de que ele seja calmo e pacífico. Coloquem músicas leves e tranquilas para tocar enquanto eu estiver acordado. Assistam televisão só depois que eu estiver dormindo. Enquanto estou acordado, faço todo o barulho de que preciso. Ah, e eu preciso que tudo fique em ordem. Eu não posso dar o melhor de mim na bagunça. Eu não sei como ordenar as coisas sozinho, mas eu preciso da ordem, então eu preciso que vocês arrumem tudo para mim pelo menos três vezes por dia. Se vocês ordenarem as coisas para mim de um jeito prático e que seja esteticamente prazeroso e faça sentido para o meu raciocínio lógico, eu vou, devagarinho, imitar vocês mais e mais.

   Em algum momento, vocês poderão me mandar colocar as coisas no lugar sozinho, quando eu tiver uns seis anos, desde que vocês se lembrem de checar tudo comigo até os nove anos. Eu não consigo lidar com o acúmulo de um dia inteiro de coisas para guardar, e muito menos o de uma semana inteira. Eu certamente nunca serei capaz de lidar com um mês de bagunça. Se vocês se distrairem e esquecerem de me ajudar a guardar tudo durante o dia e a bagunça se acumular, vocês vão ter que guardar tudo à noite.

   Eu odeio ser tão exigente, mas eu preciso ter todos os meus objetos organizados e dispostos em conjuntos completos que eu possa alcançar, de forma que eu possa pegá-los sozinho. Se eu tiver de pedir para vocês toda vez que precisar de alguma coisa, eu vou começar a me sentir um capitão, um general ou um inválido chorão. Parem e pensem, eu realmente poderia assumir um ou outro desses papéis. Nenhum de nós deseja isso. Eu preciso de independência como eu preciso de oxigênio. Ela me faz apresentar o melhor de mim. O tempo que vocês gastam organizando meu ambiente será o tempo que vocês economizarão não tendo que lidar com meu lado petulante, rebelde e teimoso.

   A televisão é uma grande interrupção no meu desenvolvimento. Desculpe! Eu sei que vocês não querem ouvir isso: eu preciso de muitas atividades manuais e preciso de muito tempo de processamento. A TV me distrai das atividades mais importantes e enche minha cabeça com mais do que eu tenho tempo para processar. Leiam para mim todos os dias, porque a leitura vai devagar, e me dá tempo para processar junto. A TV me amontoa com mais do que eu sei usar, então ou eu desligo ou fico frenético. Eu sei que vocês podem achar que alguns programas são bons para mim, e vocês podem achar que merecem a folga que a TV dá para vocês, mas nós todos pagamos um preço alto para cada meia hora que eu assistir.

   Eu não resisto à TV, mas tudo bem, porque qualquer criança de três a seis anos tem pais, e é para isso que os pais servem. A TV me deixa distraido, irritado, e me faz não cooperar com vocês. Quanto mais eu assistir, mais eu quero assistir, e aí surgem problemas entre nós. Se vocês não conseguem dizer não para o hábito de ver TV agora, onde está meu exemplo para dizer não para outros maus hábitos mais tarde? Além disso, quanto mais eu vejo TV, menos eu quero ser como vocês. Lembrem-se, eu imito o que assisto. Ah sim, cuidado também com os jogos de videogame e computador pelos quais eu vou implorar e que todos os meus amigos têm. Sei que vocês conseguem!

   Geralmente, eu vou estar tão concentrado nos meus trabalhos e brincadeiras que não vou ouvir vocês quando falarem comigo. Não piorem as coisas falando de longe ou repetindo o que vocês disseram. Abaixem-se até o nível dos meus olhos, pertinho do meu rosto, consigam minha atenção e olhem nos meus olhos antes de falar. Então, façam das suas palavras poucas, firmes e respeitáveis. Vocês vão economizar muito sofrimento desnecessário se lembrarem de fazer assim. Eu sei que não vai ser fácil lembrar, mas se vocês se esforçarem bastante, podem fazer disso um hábito. Afinal, se vocês não fizerem o que devem, como podem esperar que eu faça o que devo?

   Se você não tiverem tempo, energia ou, odeio dizer isso, auto-disciplina para seguir aquilo que vocês dizem, não digam. Ameaças vãs e promessas vazias me fazem desprezar vocês. Vocês ficam parecendo bobos, arbitrários e fracos. Eu sei que eu ajo como se quisesse conduzir o universo sozinho, mas é só bravata. Eu realmente preciso de pais para conduzirem meu mundo. Quando eu não posso confiar que vocês querem dizer o que dizem, eu não posso acreditar em vocês. Isso me faz sentir inseguro e eu chego a alguns extremos. É assustador porque eu amo vocês demais. Eu preciso respeitar vocês e acreditar que vocês querem dizer o que dizem. Vocês são a parte mais importante do meu ambiente em casa.

   Vocês se alegrarão de saber que parte do meu plano secreto pede que eu ajude com a casa e o jardim. Não, não pode ser quando vocês quiserem, quando vocês tiverem tempo ou estiverem com vontade. Tem que ser quando eu me interessar. Desculpe, não dá para negociar isso. Afinal, sou eu quem está criando um ser humano aqui. Vocês só estão educando um. Bom, eu acho que não serei de nenhuma ajuda, na verdade, não imediatamente ou diretamente. Vai ser uma complicação. Eu preciso do equipamento no tamanho certo, de demonstrações cuidadosas e de muito tempo e paciência.

   Assim que eu tiver dominado uma habilidade, e me tornar capaz de realmente ajudar, vou cansar e escolher não fazer aquilo de novo. Aí eu vou querer aprender algo novo, que exija ainda mais habilidade e desenvoltura e vocês vão ter de começar tudo de novo. Isso vai acontecer mais ou menos uma vez por semana pelos próximos seis anos e vai ocupar bastante do seu tempo tão valioso e escasso. No longo prazo, no entanto, vai ser de grande ajuda, porque eu vou me sentir tão envolvido com a casa e com a família que serei muito mais razoável e cooperativo quanto aos nossos valores e regras. Eu também serei tão capaz, independente e auto-suficiente quando eu tiver uns nove anos que é bastante razoável esperar que eu faça minha parte na casa e no jardim. Eu terei desenvolvido obediência.

   Eu sei que minhas necessidades são grandes e muitas. Eu sei que estou pedindo muito de vocês, mas vocês são tudo que eu tenho de verdade. Eu amo vocês e eu sei que vocês me amam além da razão e dos limites. Se eu não puder contar com vocês, com quem eu contarei? Mas não vamos fantasiar. Não precisa ser perfeito. Eu sou forte e resistente. Eu sobreviverei e farei o melhor. Só achei que vocês poderiam querer ter o capítulo sobre Cuidados Básicos com o Ambiente Doméstico do Manual do Proprietário sobre uma Criança Montessori. Vocês podem fazer os próximos três anos serem muito mais divertidos para nós todos se cuidarem de mim conforme minhas necessidades. Ei, nós podemos combinar que vamos satisfazer 50% das minhas necessidades? Ok, Ok, 25% e não se fala mais nisso.

   Amor, abraços e beijos,
   Seu filho de três a seis anos.

   PS: Eu sei que tenho muita sorte. Não são muitos os filhos cujos pais vão realmente ouvir e atentar para suas necessidades em vez de ceder às teimosias e chororôs. Talvez eles temam que seus filhos deixem de amá-los. Talvez temam que seus filhos não sejam populares. Eu vou guardar isso para o Capítulo Seis.
   Quanto mais eu assistir TV, mais eu vou reclamar por tédio, porque aos poucos eu vou perder minha tendência natural a seguir meus Períodos Sensíveis - sabem, aquela atração a certas atividades durante períodos determinados do desenvolvimento. Sem a interferência da TV, uma incansável sensação de insatisfação criativa me leva a explorar o ambiente, focar minha atenção em uma atividade, concentrar-me nela, e repeti-la. Sob a influência da TV, a mesma sensação incansável se torna um monstro de cara feia chamado “tédio”, que tiraniza a vocês e a mim, desgasta nossa relação e compromete meu melhor desenvolvimento.


    - Donna Bryant Goertz, fundadora da Austin Montessori School, em Austin, Texas, atua como uma fonte para escolas ao redor do mundo. O livro de Donna, “Children Who are Not Yet Peaceful: Preventing Exclusion in the Early Elementary Classroom” baseia-se em seus trinta anos de experiência guiando uma comunidade de trinta e cinco crianças entre seis e nove anos. Ela recebeu seu diploma de Ensino Básico Montessori da Fondazione Centro Internazionale Studi Montessoriani, em Bérgamo, Itália, e seu diploma de assistente para a infância pelo The Montessori Institute of Denver, no Colorado.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ordem em Família I - Autoridade


O texto abaixo faz parte de uma sequência de três artigos a serem publicados nas próximas semanas. Este, primeiro, é sobre autoridade. O segundo será sobre prêmios e castigos e o terceiro sobre rotina.
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“- Se eu ordenasse que um general voasse de flor em flor como uma borboleta, ou que escrevesse uma peça de teatro, ou que se tornasse uma gaivota, e se o general não executasse a ordem que recebeu, qual de nós estaria errado? – O rei perguntou – O general ou eu?
- Você – respondeu o pequeno príncipe, com firmeza.
- Exatamete. Só se deve exigir o que as pessoas podem cumprir.  – O rei continuou – A autoridade que é aceita apoia-se, antes de tudo, na razão. Se você ordenasse a seu povo que se jogasse no mar, eles se levantariam em revolução. Eu tenho direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.” – Antoine de Saint Exupéry, em O Pequeno Príncipe.

Celma Perry, uma brasileira que é fundadora do Seton Montessori Institute, em Chicago, conta que certa vez estava em um consultório médico esperando ser chamada e que na sala de espera estavam um homem adulto e sua filha. A menina era aluna de Celma. A criança não parava, corria pela sala, subia nas cadeiras, fazia barulho. Celma, sabiamente, só observava, o pai estava presente e não era papel dela interferir, mas aos poucos a professora percebeu que o homem estava ficando nervoso, e que mais hora menos hora, alguém ia explodir, e alguém ia cair na choradeira.

Celma Perry, do SMI
Quando o pai estava a ponto de dar uma bronca na menina, Celma apontando para o tapete cheio de bolinhas azuis, começou a contá-las: uma, duas, três, quatro... E a menina então parou, olhou para o tapete, reparou nas bolinhas, e contou-as, por muito tempo. Celma relaxou, e o pai também, agradecendo à professora da filha pela ajuda.

A autoridade Montessori só é exercida em forma de bronca, em volume alto, em último caso. Se a criança está correndo risco físico ou fazendo com que mais alguém corra, ou se está prejudicando o ambiente de alguma maneira, vale tudo. O ideal é conseguir parar a criança sem a bronca, mas se a ela for necessária, melhor isso do que um ferimento. A pergunta que sempre fica é: E depois que parar, eu ensino onde ela errou?

Bom, não. Depois que parar, ensinamos o jeito certo, e não onde estava o erro. Ensinar o erro é reforçá-lo, é marcá-lo mais profundamente na mente da criança, é fazê-la aprender o errado, ainda que seja para não fazê-lo. Pais e mães não querem filhos inativos, apáticos, imóveis. O que desejam é que seus filhos sejam positivamente ativos, acertadamente animados, que se movimentem gentilmente no ambiente. Assim, não adianta dizer “Pare!”, “Não faça isso!”, “Não toque aí!”. Adianta, antes, parar a criança no momento de risco, se ele existir, e então explicar: “Quando você quiser pegar algo de vidro e for muito grande e pesado, peça ajuda. Se couber nas suas mãos, pegue com as duas mãos e devagar, assim...” ou “Em sofás a gente coloca o pé sem sapatos. O tecido é macio, coloque a mão aqui... Viu? Tire os sapatos e pode subir” ou, ainda sobre o sofá, “Cuidado, o sofá é fofo, está sentindo? O chão é duro. Caminhar no chão é melhor do que no sofá, no sofá você pode deitar e sentar de várias maneiras”.

É claro que eu sei que perdemos a calma de vez em quando. Acontece, e não há porque nos culparmos muito quanto a isso. Somos todos humanos. Pedir desculpas é bom, mas só se a falha foi grave. Não peça desculpas por qualquer bronca, afinal, pedir desculpas é reforçar o erro, e às vezes a criança nem lembra mais. Vale a pena se esforçar, isso sim, por mudar o comportamento da próxima vez.

Ordens devem ser dadas sempre como ordens, mas nunca sem gentileza. A criança ainda não tem pressupostos nem subentendidos, e precisa que tudo lhe seja colocado muito claramente para que compreenda. Quando algum comportamente for importante, seja claro: “Quando entrarmos no museu, fale baixo”, ou “Na casa da sua tia, não pegue nos copos de cristal, ela não gosta”, ou ainda “Vá tomar banho, temos que estar prontos logo para sair”. Tenha em mente que Só se deve exigir das pessoas o que elas pessoas podem cumprir e não peça para seu filho tomar banho em cinco minutos se ele invariavelmente demora quinze. Caso essa rapidez seja necessária, seja ainda mais claro: “Entre no banho, deixe cair só um pouco de água no seu corpo, passe rápido o sabão e o shampoo, enxague-se, lave bem as axilas e a genitália e seque-se rápido também, combinado?” (em Montessori aconselhamos a ciência sempre, e utilizamos os nomes científicos reais para todas as partes do corpo: pênis, vagina, ânus. No entanto, caso prefira, não há nenhum problema em se utilizar apelidos carinhosos em geral).

Ordens e favores são duas coisas diferentes. A criança pode escolher não fazer favores, mas não pode escolher não cumprir uma ordem. Por isso, a sua fala precisa deixar muito claro quando um favor é pedido e quando uma ordem é colocada – lembre-se, seja sempre, sempre, sempre gentil. Um favor pode ser colocado como: “Querido, você pode pegar os meus óculos na mesa, por favor?”, e uma ordem precisa ser colocada como “Querido, suba, pegue sua mochila e vamos para a escola”. No entanto, tenha em mente: embora pedir favores, quando são necessários, não seja errado, é sempre muito bom expressar a sua independência e mostrar que você pode pegar seus óculos, para que a criança aprenda que pode fazer as coisas dela sozinha, também.

Mães e pais com autoridade nunca são mães e pais autoritários. Repare que a autoridade existe quando a criança compreende o aduto. Autoritarismo existe quando o filho teme os pais. Aja sempre de forma razoável e procure educar pelo exemplo. Se você pedir silêncio, mas falar alto, se você pedir ordem, mas for bagunceiro, se pedir que seu filho leia, mas só assistir TV, esqueça, não há como ser obedecido. Mas se souber mostrar como se age certo, as chances são de que mandar quase não seja necessário!

domingo, 18 de março de 2012

Passeios à Natureza - Amando e Conhecendo o Universo

Você leva suas crianças a parques? Se sim, parabéns! Se não, tire um tempinho para fazer isso com alguma frequência. O contato com a natureza é fundamental para o desenvolvimento do seu filho. Parques, praças e bosques, assim como praias, oferecem ambientes com muitos estímulos sensoriais para os pequenos, mas de forma suave, sem poluição visual ou sonora.


O contato com a natureza oferece uma quantidade muito grande de possibilidades e assim desperta a curiosidade a um ponto que a casa dificilmente conseguiria. Um dia no parque pode plantar sementes de curiosidade e questões para uma semana inteira, dependendo da idade da criança (isso é especialmente verdadeiro para a faixa etária de três a seis anos). Esteja preparado para responder a estas questões e voltar à natureza em seguida.


Quando a criança é muito pequena, é bom ir ao parque de manhã, quando o sol é fraco e ela está bem desperta, assim pode-se sentar na grama, e ela pode brincar um pouquinho com o entorno, mesmo que não possa se aventurar muito longe. Ficar perto de uma árvore é uma boa ideia, já que só um pequeno espaço incluindo a árvore oferece sombra, raizes, tronco (e sua casca), folhas, terra, grama e quem sabe frutos ou flores. Insetos estarão por perto também, não tema todos eles. Pequenos besouros, joaninhas, grilos ou gafanhotos, borboletas e bicos-pau não são arriscados e maravilham qualquer pequeno explorador.


É claro que é bom evitar abelhas (se as cores que vocês vestirem forem suaves e não houver açúcar nas comidas e bebidas, elas não vão aparecer) e se você não conhecer quais aranhas picam e quais não, espante todas. Mas pare por aí, outros bichinhos são mais uma fonte de conhecimento do mundo do que uma ameaça.


Montessori dizia que não é suficiente amar a criança. É necessário antes conhecer e amar o universo. Ame o universo. Procure se maravilhar com a natureza, assim como seu filho, adote de novo o olhar do explorador, que acha incrível uma folha avermelhada e se surpreende com um pássaro colorido. Mostre essas coisas a ele, não como um professor, mas como alguém que também acha tudo aquilo belo e surpreendente.


Permita que a criança passeie, que pare onde mais lhe interessar, que pegue coisas, que se suje um pouco (ou muito, a depender da sua tolerância), que fique muito tempo parada olhando algo que você sequer percebeu que existia ou que simplesmente não olhe para algo que fascinou muito a você. A maneira de pensar e de ver deles são muito diferentes da sua.



Mostre ao seu filho, nas próximas idas ao parque, como a natureza funciona. De forma descontraida e informal, mostre os ninhos dos passarinhos e explique que são as casas deles, mostre girinos e explique que são os filhotes do sapo, mostre as abelhas e as borboletas nas flores e explique que estão se alimentando e fazendo mel. Com o tempo, explicar a polinização pode ser muito interessante. Sim, você vai ter que estudar muita coisa de novo, mas não vale a pena? Para maravilhar sua criança com a natureza?


Algumas crianças, especialmente as mais velhas, podem recusar-se a ir ao parque ou ao bosque, dizendo que preferem ir ao shopping, ao parque-de-diversões ou à casa de um amiguinho. Embora nenhum desses passeios seja reprovável em si (não recomendamos o shopping para crianças, é excesso de estímulo), é importante que os pequenos saibam admirar o silêncio, perceber um canto de passarinho e o zumbido de uma mosca ou uma abelha. Só por meio do contato com a natureza é possível amá-la, e só por meio do amor a ela é possível respeitá-la - assim, se você quiser que seu filho saiba preservar o ambiente em que vive, mais um motivo para dar a ele oportunidades de curtir esse mesmo ambiente.


As maravilhas e as surpresas da praia são outras, e tão belas quanto as do parque. Quando der, leve seu filho, mesmo muito pequeno, ao mar. Brinquem nas primeiras ondas, molhem-se, façam castelinhos de areia e peguem caranguejinhos e conchas. Tudo isso ensina. Com tudo isso se aprende.


A textura da areia e as cores dela, o fato de nem sempre o castelo ficar de pé, a dificuldade de pegar um animalzinho que se mexe e o material de que é feito uma concha (assim como o brilho da parte de dentro dela) são aprendizados para a criança pequena. Pode ser que surja uma coleção de conchas, neste caso, tente descobrir os nomes delas e ensine-os ao seu filho. Crianças adoram categorizar coisas e estão em uma excelente idade para adquirir vocabulário, inclusive o científico, que não tem nada de difícil, e assim parece para nós por puro preconceito. Levar a criança um pouquinho mais velha (trës ou quatro anos pelo menos) até aquários pode ser fantástico também. 




O terceiro fascínio natural a que podemos e devemos expor a criança é o céu. Se houver a possibilidade de uma viagem curta até um local com pouca luminosidade (casas de familiares no interior, ou uma praia menos popular, por exemplo), mostre as estrelas, a Via-Láctea, identifique constelações e dê os nomes e as histórias delas aos pequenos. Amem e conheçam o universo.


Viver no Brasil tem muitas vantagens neste ponto. Nosso país é privilegiado naturalmente e oferece-nos uma abundância inimaginável de biodiversidade. Além disso, nós temos um escritor infantil que mostrou de forma belíssima as belezas e a perfeição da natureza em seus livros. Monteiro Lobato, especialmente em "A Chave do Tamanho", "Reforma da Natureza" e "Viagem ao Céu" mostrou como o mundo natural e o universo podem ser formidáveis. É uma boa ideia ler os livros com seus filhos de quatro a dez anos.


Quando forem ao parque, tirem fotos! Vai valer a pena mais tarde. E se você quiser, mande para a gente, e publicamos aqui. Envie para gabrielmsalomao@gmail.com contanto como foi o passeio e o que vocês viram de interessante.


Bom passeio!

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Criança para Montessori

Este é o terceiro capítulo do livro "Introdução ao Método Montessori", a ser publicado em 2012. Depois de ler, diga se foi útil, se foi agradável, se há problemas ou dúvidas. Eu espero seu retorno!

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A Criança para Montessori

"A educação da criança muito pequena,portanto, não visa
prepará-la para a escola, mas para a vida". (Montessori, 1967)

Quando Montessori inciou seu trabalho com crianças pequenas, não tinha nenhuma ideia pré-concebida, portanto, nenhum preconceito acerca da natureza da criança ou do que seria melhor para cada idade. Todo o seu trabalho foi desenvolvido tendo como base a observação do desenvolvimento infantil.

Montessori percebeu que a criança pequena (0-6 anos) tem algumas características sempre presentes, em qualquer classe social, etnia ou localização geográfica. E.M. Standing fez uma revisão da obra de Montessori e identificou estas características:

  •  Amor à ordem;
  •  Amor ao trabalho;
  •  Concentração espontânea;
  •  Apreensão da realidade;
  •  Amor ao silêncio e ao trabalho solitário;
  •  Sublimação do instinto de possessividade;
  •  Poder de agir por escolha;
  •  Obediência;
  •  Independência e iniciativa;
  •  Auto-disciplina espontânea;
  •  Alegria.


Como Montessori era uma cientista, antes de ser uma educadora ou uma ativista social, seu interesse maior era descobrir a criança, e não formatá-la. Daí podermos considerar naturais as características encontradas pela médica.

Montessori dizia que toda criança nasce com estas características, todas quando muito pequenas gostam de ambientes silenciosos, procuram estar ativas (interna ou externamente), são muito concentradas - e para isto basta ver uma criança pequena brincando de algo que lhe agrade -, o tempo todo querem entender o que se passa à volta delas, quando algo lhes desperta real interesse, passam muito tempo sozinhas em torno de seu foco de investigação, não têm noção clara de posse, não possuem rebeldia inata, por si mesmas aprendem a andar e falar, ainda que não ajudemos, sabem fazer muitas coisas e a hora de fazê-las, sem ninguém ensinar, e são alegres.

Muitas vezes, estas características parecem frutos de uma boa educação formal, mas na verdade estão presentes na criança sempre que ela é deixada em liberdade. Montessori considerava que as Casas das Crianças não eram formadoras, mas possibilitavam a construção da liberdade pela criança, de forma que aquelas belas características que haviam sido adormecidas por uma criação repressora em casa ou em outra escola voltassem à tona, desta vez de forma ordenada e em um ambiente preparado para elas.

Depois de observar crianças por muitos anos, em locais que Montessori considerava adequados ao pleno desenvolvimento de sua natureza, a pedagoga chegou à completude do diagrama abaixo:


De forma sucinta, as fases em azul são mais agitadas, de crescimento intelecto-sócio-emocional mais intenso e exigem tanto do ser em desenvolvimento que por vezes ele precisa de silêncio e solidão, pois está tentando absorver tudo o que seu corpo e intelecto exigem. Em uma escala crescente, no entanto, a criança se torna um adolescente e um adulto cada vez mais sociável.

Considerando as mudanças que ocorrem em alguns momentos da vida da criança, Montessori via não ser exagero dizer que "O crescimento é uma sucessão de nascimentos". Dizia que, "Num certo período da vida, uma individualidade psíquica acaba e outra nasce". Em todas as fases a ordem maior é proporcionar um ambiente preparado para a criança, com adultos preparados também, e depois deixar a criança livre para se desenvolver.

Na fase que vai de zero a seis (0-6) anos, a criança tem uma Mente Absorvente, estando pronta a absorver tudo o que vier do ambiente. "Este período é caracterizado pelas grandes transformações que têm lugar no indivíduo", pois a criança aprende sem ser ensinada quase todas as habilidades necessárias à sua sobrevivência: come, anda, pega, fala, controla a própria atividade biológica até um certo limite e aprende a viver socialmente, ainda que com restrições impostas pelos adultos.

Há, na fase da Mente Absorvente, duas sub-fases: a primeira, de zero a três (0-3) anos, é inacessível para o adulto, não se pode exercer nenhuma influência direta sobre esta criança. Na segunda sub-fase a mente ainda é absorvente, mas agora já é acessível ao adulto - não é de se estranhar que por muitos anos a educação formal no Brasil tenha se iniciado aos seis anos, já que só então o adulto é plenamente capaz de acessar a mente da criança.

O período seguinte, de seis a doze (6-12) anos, é de crescimento, mas sem transformações, "é um período calmo e sereno". Embora haja mudanças, não há nesta época nada que possamos chamar de "nascimento", como ocorre aos seis anos.

Chamamos a terceira fase, de 12 a 18 anos, de "Filhos da Terra". Nesta época, ocorrem tantas transformações "que nos lembra a primeira fase". Assim como a Mente Absorvente, os Filhos da Terra têm duas sub-fases: a primeira dos doze aos quinze (12-15) anos, é de maior aprendizado e mais transformações, e a segunda, dos quinze aos dezoito (15-18) é aquela que prepara o indivíduo para a sociedade humana. Sobre a terceira fase, Montessori dizia que o homem deve aprender a criar, a cultivar, a desenvolver. Depois de estar plenamente desenvolvido, é hora de participar da comunidade, daí as ideias de Montessori de que se deve dar ao adolescente a oportunidade de agir socialmente, compreendendo os caminhos da produção e da economia, assim como percebendo as diferenças sociais e buscando soluções para problemas.

No período que vai dos doze aos dezoito anos, foram identificadas algumas características extremamente comuns (Donahoe, 2010), entre crianças que foram deixadas livres para se desenvolver em um ambiente preparado:

  •  Alegria;
  •  Altruísmo;
  •  Otimismo;
  •  Confiança;
  •  Dignidade;
  •  Auto-disciplina;
  •  Independência e iniciativa;
  •  Vontade de ser útil;
  •  Bom senso;
  •  Habilidade de trabalhar com os outros.


A maior parte das pesquisas de Maria Montessori se desenvolveram com crianças de 0 a 6 anos, e ainda bastante com aquelas de 6 a 12. Após os doze anos, no entanto, Montessori pesquisou muito pouco¹ e disse que apoiava as pesquisas que estavam sendo feitas levando em consideração seus princípios. Há muito mais descobertas interessantes sobre adolescentes vindo de pesquisadores de linha montessoriana do que da própria criadora do método.


Gabriel García Márquez, grande escritor e Nobel de Literatura, foi aluno Montessori e disse, depois de adulto:
"Eu não creio que haja método melhor que Montessori para fazer as crianças sensíveis às belezas do mundo e despertar sua curiosidade sobre os segredos da vida".



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STANDING, E.M. - Maria Montessori: Her Life and Work. New York: New American Library, 1962.
MONTESSORI, Maria - The Absorbent Mind. Lexington: BN Publishing, 2011.
DONAHOE, Marta - Liberty and Hope for the Adolescent: Valorization of the Personality, 2010.

¹Publicaremos em forma de e-book a tradução de "Filhos da Terra", reflexões de Maria Montessori acerca do desenvolvimento e da educação do adolescente, ainda em 2012.